sábado, 25 de fevereiro de 2012

Este país não é para velhos.




Pensava eu ir escarnecer da morte, quando, no passado dia 18 de Fevereiro, lia no Expresso “Um desejo absurdo de sofrer”, a crónica de Maria Filomena Mónica. Estava enganado. Mais à frente, no mesmo jornal, Maria José Morgado escreve, ela também, sobre a morte. Na sua crónica "Justiça de Perdição" fala-nos sobre “Morrer em Lisboa”.

Transcrevo em baixo o texto que me comoveu.

Morrer em Lisboa

Num destes dias consultava atormentada uma estatística de óbitos na cidade de Lisboa. Éa das comunicações da PSP ao MP, sobre cadáveres encontrados abandonados no interior de habitações, na rua ou entrados nos hospitais. Defuntos desamparados, na solidão e na miséria. Entranhas negras da cidade da luz branca onde os mecanismos do apoio social ou familiar se desfazem com a crise, com a desagregação familiar, na indiferença das grandes cidades.
Muitos destes idosos, com pensões inferiores a 500 euros, não tiveram acesso aos lares sociais nem a qualquer assistência. O apoio domiciliário está exaurido. Nas miseráveis habitações de toda uma vida humilde, chegam a descobrir os corpos caídos, putrefactos, cobertos de larvas, em avançado estado de decomposição ausência de globos oculares, no meio de lixo acumulado e de comida seca e podre. Morte sem assistência médica. Vem descrito em certo processos. morte silenciosa dos desvalidos.
No mês de janeiro foram comunicadas 101 destas mortes, corridas na cidade de Lisboa.
Só nos dias 30 e 31 de Janeiro foram comunicadas 21 mortes solitárias. Foram ordenadas 74 autópsias e dispensadas 27. No mês e dezembro foram comunicadas 76 mortes nas mesmas circunstâncias. Ordenadas 53 autópsias e dispensadas 23.
Este serviço do DIAP de Lisboa regista uma média mensal de 70 óbitos. Cada autópsia oscila entre cerca de 700 e 3000 mil euros, consoante os casos. São ordenadas em caso de dúvida sobre a causa da morte.
O maior número de mortes situa-se entre os setenta, oitenta e nove anos. Há mais homens do que mulheres a morrer nestas circunstâncias trágicas. Segue-se a absurda burocracia da morte. A PSP comunica ao MP a existência do cadáver que só pode ser removido com autorização do MP. O delegado de saúde verifica o óbito. Um perito do Instituto Nacional de Medicina Legal faz o exame do hábito externo do cadáver.
O MP providencia o funeral digno e humilde com o apoio da Santa Casa da Misericórdia ou de outra instituição social. Quando se regista a existência de bens, ainda que sejam vasos de plástico com flores de plástico, ainda que sem valor comercial, é obrigatório participar ao tribunal cível num processo de herança jacente. Estes bens sem herdeiros e sem valor revertem para o estado que não os quer e que gastou mais nesta diligência do que se lhes tivesse dado um destino expedito.
É o zelo absurdo da burocracia da morte depois do desamparo em vida. Um esmagador silêncio rodeia tudo. As famílias, os filhos desapareceram. O estado social também.
Há uma procuradora-adjunta de turno, com um telemóvel disponível 24 horas sobre 24 horas, para que ao menos não haja atrasos na autorização da remoção dos cadáveres encontrados em casa ou na via pública. Há o trabalho da PSP e do Instituto de Medicina Legal. Fazemo-lo com o desejo de respeitar a dignidade do ser humano até ao fim. Fazemo-lo no departamento que, tendo por missão principal o combate ao crime também este estranho serviço de óbitos.
Estranho mundo, este.


Recordo que na mesma semana vimos na televisão no programa Linha da Frente, um excelente trabalho da jornalista Rita Ramos, “Está alguém em casa?”.

http://tv1.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=25508&c_id=1&dif=tv&idpod=72651

Estas denúncias, estes gritos de alerta, não podem continuar a ser ignorados pelo Estado e pelas instituições. Está aí alguém?

3 comentários:

Portugalredecouvertes disse...

há que ter receio que com o Estado Social a ficar mais reduzido, a tragédia seja maior.

Inês M. disse...

Chorei imenso com esta reportagem. Obrigada por partilhar.

Portuguesinha disse...

A frase que mais me tocou:
«É o zelo absurdo da burocracia da morte depois do desamparo em vida».

Algumas vezes dou por mim a pensar no quanto se é maltratado pela vida, pelas instituições que ás vezes deviam nos proteger melhor, enganados pelo sistema de saúde, traídos... mas na MORTE, na morte vão ver se o defunto tem algo de valor ou utilidade aos vivos. Falo da extracção de órgãos, mas tb podia referir-me a bens materiais.

O «abandono» de idosos não se pauta apenas por estes exemplos. Também os há em lares ou em hospitais. Mudos e sozinhos dias e meses, de olhos fechados ou abertos para um tecto que é sempre igual. Quando chegar a minha vez de fechar os olhos, não quero que a última coisa a ver seja um tecto. Feio, branco, sujo... Quero um rosto amigo ou a beleza da natureza. Mas não um tecto, não um tecto, por favor!