sexta-feira, 10 de abril de 2009

Enquanto houver pedalada.


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Manuel Santos Ferreira.
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O nº 112 da Rua de São José. A Drogaria Samora.
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É que a minha mulher ainda era da família do Rogério Samora, sabem?
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O Calicida S. João é de facto imbatível no tratamento dos calos.
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Este homem tem 78 anos. Desde os 12 anos que trabalha como droguista. Façam as contas.
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Mas está aqui só há uns quarenta anos.
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Quando foi a campanha do Humberto Delgado fui para a Avenida, apanhei e tudo, não devia ter ido.
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Visitou vários países. Só a França, foi seis vezes.
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Falou-nos da sua ida a Lourdes. E das gôndolas de Veneza. Mas para passear de gôndola, é melhor à noite.
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Hoje é viúvo.
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Fala muito da mulher. E que foi importante saber gozar a vida no momento certo.
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Eu dizia-lhe sempre, agora é que temos de ir ao estrangeiro, agora é que tem de ser. Não é quando formos velhos. Enquanto houver pedalada é que tem de ser.
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Falou das artes e mistérios do seu ofício.
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Numa drogaria, não sabíamos, há sempre uma casa-forte onde guardam os produtos inflamáveis.
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Não se lamentou que não vendia, que o negócio ia fechar. Não. Gozou a vida na altura certa. Agora, está à espera de Godot.
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Eu e a minha mulher íamos almoçar todos os dias, até sábados e domingos, ao «Arado», que é um restaurante muito bom e ia lá muita gente da Embaixada de Espanha. A minha mulher agradecia-me muito, pois dizia que uma das piores coisas da vida de uma mulher era ter de se deitar já a pensar no que seria o almoço do dia seguinte.
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Isto é ráfia. Bem, toda a gente sabe que é ráfia.
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Os estrangeiros - passam aqui muitos estrangeiros - fartam-se de comprar colheres de pau.
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Isto também tem muita saída. Os estrangeiros procuram muito.
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Até para porem na decoração das casas deles.
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Um poeta da Renascença disse: «É um facto notório que todos iremos morrer. No entanto, vivemos como se fôssemos viver para sempre».
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Este homem, não. Não viveu como se fosse viver para sempre. Preferiu viver a vida na altura certa. Enquanto houver pedalada... Viajou, jantou fora com a mulher. Trabalhou desde os doze anos. Hoje, quase com oitenta, continua de bata imaculadamente branca; e de gravata. Gosta de falar. Nós também.
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Enquanto houver pedalada.
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Rua de São José, nº 112.

5 comentários:

lumadian disse...

Pelo amor de Deus, esse homem tem a drogaria num caos, deve haver produtos lá já bem fora de prazo ou alguns que ele nem sabe onde colocou!
Em Almada, existe uma drogaria que era de uma velhota há muitos anos, mas no último ano ela passou para familiares mais jovens, e agora está arrumadinha, tudo no seu sitio e está sempre cheia de gente. Esse senhor está mais que ultrapassado no tempo.

Miffy disse...

Boa Tarde,

Antes de tudo, mais uma vez estão de parabéns pela reportagem.

Relativamente ao comentário da Exma. Sra. supra, não concordo com o que diz: como é que sabe que os artigos estão fora de prazo? Já lá comprou? É que fazer comentários desse tipo, não me parece muito elegante da sua parte.

Quanto à desarrumação: pode ter a certeza de que se lá for encontrará muito mais eficiência e educação do que nalguns sítios ultra arrumados e higiénicos.

Pela minha parte, nunca conheci nenhuma drogaria que tivesse organizadíssima e, aliás isso faz parte da essência e do charme desses locais.

Boa Páscoa!

Julio Amorim disse...

....espero que continue desarrumada, mesmo que as colheres de pau estejam fora de prazo...

Miffy disse...

Ainda bem que ainda há quem pense como eu, pois só assim é que espaços destes conseguem sobreviver :)

João disse...

boa tarde...voltando ao 1º comentário deste blogue esse senhor não vende coisas fora do prazo e além disso quando se refere a drogaria de almada que tem la uma pessoa jovem essa pessoa sou eu e o tal senhor da drogaria de lisboa a que se refere é o meu sócio. Apenas quero demonstrar que nem tudo o que parece as vezes é e não devemos julgar as pessoas por aquilo que aparentam