quarta-feira, 20 de abril de 2011

À flor da pele: Colecção de Dermatologia dos Capuchos.



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D. Tomaz de Mello Breyner.

Médico de D. Carlos I e 4.º conde de Mafra.

Nasceu em Lisboa, em 2 de Setembro de 1866; morreu na mesma cidade em 24 de Outubro de 1933.

Filho segundo dos 2.os condes de Mafra, e irmão mais novo do 3.º conde, Francisco de Melo Breyner, que morreu em 1922, foi 4.º conde por autorização de D. Manuel II no exílio.

O pai tinha sido comandante do batalhão de caçadores 5, de que os reis de Portugal desde D. Pedro IV eram comandantes honorários, sendo no Castelo de S. Jorge, quartel do batalhão, que Tomás de Melo Breyner nasceu. Estudou no Colégio Académico Lisbonense, tendo frequentado a Escola Politécnica e posteriormente a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, no Campo de Santana, tendo sido interno dos hospitais nos últimos anos do curso.

Especializou-se em França, tendo concorrido em 1893 a médico do hospital de S. José, ano em que foi nomeado médico da real câmara por D. Carlos I. Nestas funções acompanhou a rainha D. Amélia a Paris em 1894, e a rainha viúva D. Maria Pia a Itália em 1901.

Em 1897 foi como secretário do Dr. Sousa Martins ao Congresso sobre peste bubónica que se realizou em Veneza. Em 1903 representou Portugal no Congresso Internacional de Medicina de Madrid, em em 1905 no realizado em Paris. Em 1906 o Congresso reuniu-se em Lisboa e D. Tomás de Melo Breyner foi eleito secretário da comissão executiva.

Foi deputado na legislatura de 1906-1907, e director de serviço clínico nos Hospitais Civis de Lisboa.

Casou em 1894 com Sofia Burnay, filha mais nova dos 1.os condes de Burnay, tendo tido nove filhos.
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Carta Manuscrita, 1909. Carta manuscrita a lápis de côr, em papel timbrado de "Thomaz de Mello Breyner - Médico dos Hospitais", apresentando no final uma curiosa indicação "Deve trazer a receita quando voltar".
Dirigida a "Meu Caro Reynaldo" ( Prof. Reinaldo dos Santos), 1 pag., assinada e datada (16-3-1909):
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"... Ahi vae um doente. Meus parabens pelo sucesso moral de hontem. O publico nada disse! nem seuqer o presidente!!! mas lembre-se que é gente da mesma raça da que se riu quando se quebrou uma corda à rabeca do Kubchik (?). Selvagens! Não merecem que se lhes mostre senão uma coisa que eu cá sei..."
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Nos anos 40 do século passado pondera-se a ideia de criar 3 hospitais especializados em Dermatologia nas cidades do Porto, Coimbra e Lisboa. Em 1947, Caeiro Carrasco, Director do Serviço de Dermatologia do Hospital dos Capuchos, propunha que esses hospitais incluissem um Museu de Dermatologia. Em 1955, uma sala do Hospital do Desterro é destinada ao então designado Museu da Dermatologia Portuguesa. Este Museu tinha dois objectivos: homenagear a figura do médico dermatologista Luís Alberto de Sá Penella e salvaguardar a colecção de figuras de cera sobre patologia dermatológica. Em 2007, com o encerramento do Hospital do Desterro, o médico dermatologista João Carlos Rodrigues, protector e estudioso do espólio do Museu promove a suaa transferência para o Salão Nobre do Hospital dos Capuchos. Em 2009, este espaço acolhe o espólio de Caeiro Carrasco.
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Esta colecção engloba 254 máscaras. Destas, 92 sãoo provenientes do Serviço de Dermatologia do Hospital dos Capuchos e foram mandadas executar por Caeiro Carrasco; as restantes 162 pertenciam ao Serviço de Dermatologia do Hospital do Desterro, encomendadas por Sá Penella e foram executadas entre os meados dos anos trinta e quarenta do século XX.
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Nelas estão documentadas tridimensionalmente muitas patologias que, devido aos avanços daas técnicas terapêuticas, desapareceram ou são excepcionalmente raras, como as gomas sifilíticas, os estádios avançados da doença de Nicholas Favre, algumas formas de tuberculose cutânea e as alterações dermatológicas ocasionadas pela utilização do arsénico inorgânico.
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Quanto à técnica de execução destas máscaras, parece não haver dúvida de que os moldes eram obtidos directamente sobre o corpo. A parte do corpo do doente a ser reproduzida seria coberta por substância não aderente e com gesso. Este, uma vez seco, tornar-se-ia o negativo da lesão, no qual seria introduzida uma mistura de ceras em fusão que, ao solidificarem, constituíam o modelo pretendido. Obtido o positivo em cera, teria lugar a pintura e, para aumentar o realismo, a aplicação de pêlos e cabelos naturais e olhos artificiais. O modelo, uma vez terminado, era envolto em pano pregueado, fixado em suportes de madeira e etiquetado com o nome da patologia.
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Esta mulher nasceu, viveu, morreu. Provavelmente, sofreu. Quem seria? Não é impossível saber. Daqui, da documentação que aqui existe, poder-se-iam fazer crónicas extraordinárias sobre a vida e o quotidiano de um Portugal que acabou - felizmente.
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Um património a preservar. E a conhecer. Pode fazê-lo, no Hospital dos Capuchos, por marcação (963997916). Em breve, vai estar aberto ao público.
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Um espaço único no coração de Lisboa.
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Ao contrário do que acontece com as peças do famoso «La Specola», de Florença, estes moldes eram obtidos directamente sobre os doentes. Gente real, cujos nomes e fichas clínicas podemos conhecer. Aqui há vasto campo para obras de História e de ficção.
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Quem foi este homem? Rico? Pobre? De que males padecia?
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Os pêlos púbicos são verdadeiros, como forma de aumentar o realismo do modelo.
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Umas mãos, recentemente restauradas por outras mãos - prodigioso trabalho de arte e paciência.
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A este homem se deveu o trabalho de salvaguarda das colecções. Sem ele, tudo estaria perdido. João Carlos Rodrigues. A memória agradece.
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Luís Alberto de Sá Penella (1889-1955), o fundador da moderna Dermatologia portuguesa.
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Uma lápide antiga. Quem a protegerá da avidez dos homens?
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Como é que a Sociedade Portuguesa de Dermatologia, a indústria farmacêutica, a classe médica não se interessam por defender este acervo único?
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Fotografias dos pais fundadores da Dermatologia. Há um longo caminho a fazer: inventariar, descrever, estudar.
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Anunciada para breve, a abertura ao público deste espaço pode ser uma ocasião para que os lisboetas - e todos os portugueses - conheçam melhor o património que urge preservar. Uma vez destruído, nada o poderá recuperar.
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Last but not the least, há que referir, sem dúvida, o projecto FCT ao qual se deve a estudo e preservação das peças que aqui se exibem. Obrigado à generosidade de Cristiana Bastos - coordenadora do projecto de investigação "A Ciência, a Clínica e a Arte da SÍfilis no desterro, 1897-1955" (HC/0071/2009), apoiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (História da Ciência) e executado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

12 comentários:

Carlos disse...

Como médico da GAliza aficionado a Historia da MEdicina prometo vistalo no meu proximo viaxe a Lisboa. Polo reportaxe pareceme unha Colección UNICA

Carlos disse...

Xa quiseramos aquí unha colección deste tipo

Cíntia Rodrigues disse...

Olá! Sou estudante de museologia e pesquiso uma coleção semelhante a esta, há algum site ou maneira de entrar em contato com a fundação que esta preservando estas peças?

Lisboa SOS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lisboa SOS disse...

Recebido no mail do blogue:

pode contactar-me para bastoscristiana@gmail.com

se é em sao paulo a responsavel já contactou comigo em agosto mas nao voltou a faze-lo. uma colega do rio que está orientada para isso tambem me contactou e enviei-lhe o livro.

abraço -- obrigada

cristiana bastos

Lisboa SOS disse...

Recebido no mail do blogue:

pode contactar-me para bastoscristiana@gmail.com

se é em sao paulo a responsavel já contactou comigo em agosto mas nao voltou a faze-lo. uma colega do rio que está orientada para isso tambem me contactou e enviei-lhe o livro.

abraço -- obrigada

cristiana bastos

Portuguesinha disse...

Fiquei com muita curiosidade para perceber que patologias correspondem a determinados sintomas. O realismo é tão impressionante que até coloca em dúvida se não é real...

Mas FOI real. E descobrir a história das pessoas que, sem escolha, deram o «rosto» e não só, das suas maleitas para a posterioridade e para a ciência, parece-me igualmente IMPORTANTE.

Portuguesinha disse...

Foram curadas?

Portuguesinha disse...

Esqueci... vim aqui parar para comentar uma curiosidade sobre o cartaz que anuncia as consultas do médico, das 2 às 4 da tarde.

Um médico que só atende pacientes das 2 ás 4 da tarde...

Isso remete mesmo para outro tempo. Uma tempo em que o próprio tempo devia passar mais devagar. Em que o paciente devia ser visto em 10 a 15 minutos de consulta...

Hoje um médico não tem tempo para se coçar :)!

Mariana disse...

Esses corpos humanos são todos reais?
Alguns precisam de se tratar com dermatologia em curitiba porque estão muito feios! haha!

Orquidia do Jardim disse...

Impressionante!! é só o que posso dizer, nunca me passaria pela cabeça que haveria uma colecção assim. Uns moldes perfeitisimos que parecem verdadeiros.
Ainda bem que a medicina se desenvolveu bastante até aos dias de hoje e as pessoas estão mais atentas à sua saúde para não deixar que as doenças se desenvolvam. Mas ainda há muito a fazer, os doentes têm que perder o medo e a aversão aos médicos e aos hospitais.

Muito obrigada pela partilha.

Um abraço
Flor

Assunção Quintas disse...

Acabei de ver a reportagem do programa "sexta às 9", sobre a Tinha, como fui afetada por essa doença nos anos 46/47, tinha 7/8 anos e fui tratada no hospital do Desterro. Será que ainda existe algum documento que trate desse assunto? o meu nome de solteira é Maria Assunção Silva.