

Já se começa a ver alguma coisa por trás dos Serviços Sociais...

Pois aqui temos um bom exemplo de serviço social...

Os serviços sociais da Câmara são realmente de grande eficácia. Merecem estar bem instalados, de facto. Sim, eu sei, aquilo é só para os trabalhadores da Câmara. Mas não digam mal. Primeiro, o edifício ficou muita lindo, com revestimento a madeira, relvado e até um espelho de água. E, depois, presta realmente um grande serviço social: impede que os lisboetas vejam a desgraça do bairro Portugal Novo. Assim, evita-se a nostalgia do Portugal Velho e a recorrente conversa da «quarta classe bem feita, no meu tempo», do «antigamente, uma sardinha dava para três» ou o clássico «o que esta malta precisava não era nem de um, nem dois, mas de três salazares».
O Portugal Novo também tem espelhos de água. Ei-los:

Até têm carros à porta... O que é que esta gente quer mais? Querem ver que ainda queriam mas era fazer parte dos Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa? Querem ver? Vão mas é para o Turf ou para o Grémio Literário, ranhosos do camandro.



É pá, o Nelo gosta imenso de fazer fogueiras junto à parede. Já lhe disse que essa cena 'tá muita mal feita.


Olha, controla-me bem a cena que o Nelo fez. Assim não dá mesmo para entrarmos nos Serviços Sociais da Câmara. Com gente como o Nelo, não dá mesmo.
O que vale é que os nossos putos também têm relvados como os dos Serviços Sociais da Câmara. Bem visto, bem visto, não quero fazer parte dos Serviços Sociais.
Aqui no Portugal Novo é tudo muito a coçar para dentro. Não há espírito colectivo. Não há camaradagem. Cada um pinta o seu bocadinho de parede e prontos. Depois sai tudo uma misturada.
Olha a quantidade de carros que os tipos dos edifícios K, L-1 e M-23 têm... Depois reclamam serviços sociais. Até tenho vergonha de ser vizinho deste pessoal tão fatela.

Ficou giro aquele desenho do meu mais velho, não ficou? O puto quando for grande já disse que quer ser artista. Eu gostava mais de o ver com um emprego seguro, um ordenado certo, num supermercado ou no «carjacking» ou assim, mas o miúdo tem-me a mania que é artista. Na volta ainda me sai mas é um ganda lilas. Ou ainda me casa com uma preta. O problema são as companhias, que ele até é bom moço.

E tem jeito, olhem melhor...
Al Berto, o poeta, deu nome a uma rua do Bairro. Mas não é de poesia que se vive aqui. É do medo que se alimenta o bairro. Os habitantes chamam-lhe “Portugal Miserável” em vez de “Portugal Novo”. Os autarcas ignoram-no. Está tudo chamuscado de pequenas fogueiras junto das empenas dos prédios e nas entradas. Não existe um canteiro, um parque para as crianças brincarem, uma bica de água, um banco na sombra de uma árvore. O que há são janelas e portas entaipadas ou completamente destruídas, lixo espalhado por ruas que nem ruas são. Dura isto há vinte anos. Uma vida. Uma vida no medo. As imagens que aqui vos trago podem não vos sensibilizar, podem parecer-vos até um pouco coloridas. Por isso, um destes dias visitem o Bairro Portugal Novo. Está lá tudo o que não devia estar.







Ainda bem que saímos da realidade. Regressemos, tranquilos, ao edifício dos Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa.




Em 2005, o vereador do Bloco de Esquerda, José Sá Fernandes, apresentou uma proposta para reabilitação do Portugal Novo, entre outros bairros:
in http://www.esquerda.net/media/reabilitacaobairrossociais.pdf
A proposta seria aprovada. Depois, José Sá Fernandes e Francisco Louçã estiveram no Bairro Portugal Novo. Claro, muitas notícias: aqui, aqui e aqui.
Muitas notícias, poucos resultados. O Bairro continua na mesma. Não nos interessa nada se o Zé faz falta. O que nos interessa é o que faz falta ao Zé. E se o Zé não consegue dar o que faz falta ao Zé para que é que temos um Zé? Para nada?







1 comentários:
Finalmente alguém, com coragem, se lembrou de mostrar a realidade do Bairro. Gostava de ver ao fim de 26anos alguém pôr finalmente as mãos no bairro. Os verdadeiros donos das casas não se importam de passar a pagar renda para terem as condições e a segurança de poderem ir de férias descansados sem correrem o risco de voltarem e terem as suas casas ocupadas ou vandalizadas. Numas das fotos pode se ver as únicas pessoas que gostam de como o bairro está.
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