segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Pátio de Dom Fradique.

Situado junto ao Castelo de São Jorge, o Pátio de Dom Fradique está assim. Simplesmente assim.

Pelo chão, uma pedra ostenta ainda a inscrição de uma das entradas do Pátio.



O Pátio é local de passagem de todos os que circulam entre São Tomé e o Castelo, muitos dos quais vêm de Alfama e das Portas do Sol.

O Pátio tem uma vista privilegiada sobre o Tejo, o Mosteiro de São Vicente, a Igreja de Santa Engrácia.

«It's a disaster», diz-nos Stephan, morador em Berlim. «Esta é a parte de Lisboa que mostram aos turistas?», perguntou. Tivemos dificuldade em responder que sim.















Há muitos gatos no Pátio. Os moradores, esses, já saíram há alguns anos. Ninguém vive aqui.





Muitos aproveitam o Pátio de Dom Fradique para estacionarem os seus automóveis. De dia, o lugar é relativamente seguro para quem não for estrangeiro. De noite, as coisas mudam.




























Alguém teve o trabalho de transportar uma cadeira de escritório até aqui. Para quê?

Outros largaram cadeiras em cima dos telhados.









A. tem 40 anos e é toxicodependente. A sua companheira, G., tem 36 anos e não quis ser fotografada enquanto consumia heroína. G. tem um filho, «mas esse está bem». Falámos longamente com ambos. A. pediu desculpas por não conseguir olhar-nos de frente enquanto conversávamos. Segundo ele, a incapacidade de os seus olhos se fixarem num ponto era um misto do efeito da heroína que acabara de consumir e da vergonha que tinha por ser toxicodependente. Sugeriu que o fotografássemos enquanto se injectava, até para que, disse, as pessoas vissem as condições em que era obrigado a fazê-lo.



O Pátio de Dom Fradique é um refúgio de toxicodependentes, que escolhem os recantos mais discretos para se injectarem a qualquer hora do dia.



Entretanto, a poucos metros daí, uma esplanada de qualidade junto ao Hotel Palácio Belmonte, provavelmente o melhor ou mais conceituado «hotel de charme» de Lisboa.








O Pátio de Dom Fradique é um lugar com História. Por aqui passava a Cerca Moura, onde fechava com os muros da Alcáçova. «Quem era esse D. Fradique (Frederico) é ponto duvidoso. Depois de longas pesquisas, inclino-me a admitir D. Fradique Manuel, mencionado no tomo XI da Historia Genealogica da Casa Real, e filho de D. Nuno Manuel e D. Leonor de Milá. Era em 1518 Moço Fidalgo d'el-Rei D. Manuel. O certo é que já próximo ao meio do século XVI tem este palácio (hoje da Casa de Belmonte) o título de D. Fradique», diz-nos Júlio de Castilho, Lisboa Antiga - Bairros Orientais, vol. I, 2ª ed., revista, Lisboa, 1935, p. 255.







À entrada (ou saída) do Pátio, um rosto. De quem? De todos nós?






Pátio de Dom Fradique, Castelo, Lisboa. Aos 20 de Setembro de 2008. Portugal, Europa.

Sobre este assunto, ver este artigo do JN e este post do Cidadania Lx, de 2006. De então até agora, é o que se vê. Pelos vistos, em Outubro, os anteriores proprietários podem pedir devolução, e o Igespar não coloca obstáculos a total demolição. Depois não se admirem.

10 comentários:

Ana disse...

Mas vive alguém em Lisboa ?
E Lisboa é uma cidade ?
De certeza ?
Este fds fui a Sintra, desci até ao Museu Teixeira dos Anjos.
Estava fechado.
Paciência.
Ao lado está uma velha casa em ruínas, cheia de lixo igual ao de Lisboa.
O lixo é igual em todo o país.
Seja Património da Humanidade, como Sintra, ou não.
Só uma pergunta:
A UNESCO ainda existe ?
E são todos cegos na UNESCO ?
E uma última pergunta:
O que é "Humanidade" ?
E para terminar:
Alguém quer saber de Sintra ? ou de Lisboa ?
Só os ciber-parvos, como eu.

Rafael Santos disse...

quem o viu e quem o vê. Ainda me recordo de quando era puto, passar por esse páteo, quando ia andar de bicicleta para o castelo. Pena o seu estadoa ctual. E em situação semelhante está também um páteo que segundo apurei em tempos, foi a fábrica de pólvora, junto à calçada dos Barbadinhos no topo da colina.

Jose Martins disse...

Não me acreditaria se não tivesse visto as imagens... O meu país está a ficar uma merda a ser governado por merda de gente!

Nuno disse...

Excelente "levantamento" humano e patrimonial.

É frustante o modo como este espaço, apesar do seu estado de degradação, permite mesmo assim a percepção do seu enorme potencial e beleza de outrora ( e, espero do futuro).

A quem pertencem os edifícios?

Archiclass disse...

é engraçado que quando me falaram deste espaço na aula de projecto, pareceu me um simples pátio como tantos de Lisboa. Agora, ao vê-lo naquele estado de miséria extrema e total abandono é que me ponho a pensar.Como é que alguns ou algum deixa que aquela situação passe assim?, como que despercebida. eu e mais uns 300 alunos do 2º ano de arquitectura vamos "sarar" aquela ferida, ainda que seja apenas no papel e em algumas maquetas, esperamos e espero que isso seja apenas o mote para que algo de concreto surja, porque de todas as cidade que conheço,Lisboa, é a minha cidade, e depende de mim e de todos nos fazer mos alguma coisa para que esta cidade lindíssima, onde estes pormenores falham constantemente, o deixem de acontecer.

Eva Cruz disse...

A minha mae morou aqui... Oiço histórias deste páteo desde que me conheço como gente... Fiquei preplexa com estas imagens, que ainda não decidi se mostrarei à minha mãe ou não, pois tenho medo que lhe estrague as memórias de uma infância onde Lisboa era pobre mas alegre, com orgulho no seu património e gente. Fiquei sinceramente triste e desgostosa, sempre imaginei este sitio como alegre, bairrista, vivo e no entanto está morto, aliás nem enterrado propriamente está, serve agora como espelho da decadência a que os que governam sobre Lisboa a deixam chegar.

Rui M disse...

passei por lá este fim de semana e haviam partes vedadas, máquinas e sinais de obras.
sabem o que vai acontecer?

Manuel disse...

A CML, que é agora a proprietária do pátio, fez obras de consolidação, basicamente para as paredes não cairem. Por outro lado, conseguiu-se afastar os toxico-dependentes para outros lados...
O pátio está com um ar melhor, mas parece que ainda não há qualquer projecto para o recuperar inteiramente.
O portal da entrada do pátio de baixo foi recuperado e está com um ar muito mais sólido, antes ameaçava cair em cima de alguém...

maria disse...

Tambem eu nasci naquele lindo pateo. É uma dor de alma ver o que conseguiram fazer de um local onde todos se consideravam familia. Fui há uns anos mostrar a meus filhos a casa onde nasci,ainda estava de pé e a minha tia e madrinha ainda lá morava embora algumas das casas já estivessem abandonadas.Tenho saudades daquele lugar onde meus avós tios e primos maternos nasceram, cresceram, casaram e tiveram seus filhos, sendo esses os ultimos a sair dali. Não sei que mais hei-de dizer, só que meu coração sangra ao ver estas imagens.
Maria Clarisse França

terrardente disse...

O velho Pateo não deixa indiferente, ainda bem. Este recanto representa muito do que foi, é e será a Capital e o Portugal de amanhã.