segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Gente com nome e lugar.

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Pedro Antunes Fernandes da Veiga. Encontrei-o no sábado passado, ao fim da manhã. O dia não me tinha corrido bem: uma das máquinas estragara-se, tinha sido insultado ao fotografar na Feira da Ladra (fotografar está cada vez mais difícil...), para os lados da Ajuda tropeçara numa família cigana muito hostil com um «pitbull» muito hostil, o guarda da Igreja da Memória perdeu a memória do que é boa educação. Ao regressar a casa, encontrei um homem.
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Um homem de 67 anos.
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Cidadão português que nasceu em Cabo Verde. Na ilha de São Nicolau. 1941. Não fixei o dia nem o mês.


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Vive aqui há 30 anos. No Restelo, junto às Torres. Num socalco da encosta que tem os moinhos.


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Todas as casas foram demolidas. O chão das moradas ainda lá está, criando estranhos socalcos de várias cores na encosta dos Moinhos. Pedro Veiga vive aqui, na companhia de uma cadela, a Mira.
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Quis ficar aqui. Os outros foram para Chelas.


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Pedro da Veiga ficou aqui.


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Porque quis.


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Era hora de almoço. Interrompi-o quando comia. Mas não se importou. Não se importou nada. Não estranhou que eu estivesse ali. Não se incomodou que o fotografasse. Não me fez perguntas. Para quê, perguntas?


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Pedro da Veiga nada tem a esconder. Está tudo à vista. Tudo está à vista. Olhem.

Vive num buraco, na fenda de um muro. Debaixo de terra. E quando chove? Não sei como é quando chove. Não sei, não sei. Talvez também chova no coração de Pedro. Talvez haja chuva dentro da sua cabeça. Não sei. Mas isso é para os «técnicos». Eu não sou «técnico». Mas estive lá.

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Pedro não falou de quem vive ao perto. Para quê, quem vive ao perto? Que interessa a vida dos outros?
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Falou de si e da Mira e das galinhas que já vou mostrar. Que ele me quis mostrar.
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Uma coisa é conhecimento, outra sabedoria.
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Outra coisa ainda é ironia. Pedro tem um boné do Departamento de Higiene Urbana da Câmara Municipal de Lisboa. É mesmo a única coisa que aqui existe do Departamento de Higiene Urbana da Câmara Municipal de Lisboa. Trabalhou na Câmara, contou-me. E gostaria de voltar a trabalhar um dia, mas não disse onde nem em quê.
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Podíamos perguntar: como é possível viver assim? Mas não façamos perguntas estúpidas.
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Este é o lugar onde dorme. Na entrada, duas grandes telas de plástico.
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A cama de quem quis ficar quando os outros partiram. Há vontades isondáveis na alma dos homens sós.
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Era difícil fotografar. Nestas coisas, as imagens ficam sempre a milhares de quilómetros de distância do que se viu e falou, dos cheiros e sons. O que se mostra nunca é o que se viveu.
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E eu também não queria fazer «arte». Se quisesse, não estava aqui.
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Nem quis entender para quê as malas e tantos sapatos. Há viagens que são de cada um.
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Esta é a casa, vista de cima.
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O telhado, portanto.
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E estes são os muitos restos dos dias de Pedro.
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No interior da sua casa, Pedro improvisou uma prateleira. Usou outras tábuas para arranjar a sua horta.
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Pedro da Veiga, morador no Restelo. Aí tem uma horta, com galinhas e couves. As suas mãos sujas são mais limpas do que as da maioria dos outros homens.
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De cima dos prédios, certamente se verá isto. Ou não? Não interessa.
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Há quem não entenda porque é que este blogue é anónimo. Perante isto, todos não o devemos ser?
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Que interessa quem sou? Que interessa quem vive naqueles prédios? Que interessa se fez ou não alguma coisa pelos destinos de Pedro?
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No terreno, algumas caixas do Exército servem para guardar coisas. Outras, estão vazias.
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Os olhos de Pedro brilharam quando me mostrou a sua horta. Na horta de Pedro não há esquerda ou direita, nem crença ou ateísmo. Na horta de Pedro há galinhas e couves-galegas.
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Os moinhos, ao longe. Por vezes, o olhar de Pedro perdia-se no longe.
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Outras, concentrava-se em mim. Sem mágoa nem rancor, sem ódios nem manhas.
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Pedro da Veiga cria galinhas. E teve tanto orgulho em que eu as visse.
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Orgulho de quem mostra o que tem.
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Teve muito trabalho para tirar as galinhas do galinheiro.
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Muito trabalho, mas muita persistência.
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Foi difícil mostrar as suas galinhas. Mas Pedro insistiu em fazê-lo. Porquê? Porque eu estava ali para ele me mostrar as suas galinhas. Tão simples como isso. Não compliquem.
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Não compliquem a vida de Pedro.
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Até porque não vale a pena. Pedro teve a sabedoria de não deixar que lhe complicassem a vida. Em Chelas, talvez não tivesse um galinheiro.
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Esta é a «Loura».
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Pedro Antunes Fernandes da Veiga, Novembro de 2008, numa cidade chamada Lisboa. No dia em que 120 mil pessoas se manifestaram na Avenida da Liberdade. Lá tão longe.
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Um homem simplesmente digno. Ou dignamente simples.
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Um homem que trabalha a sua terra e que não pediu nada e que não perguntou nada. Achou normalíssimo que eu quisesse falar com ele e fotografá-lo e ao sítio onde vive. Um afecto tão efémero quanto recíproco.
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Não fiquem deprimidos ou tristes ao verem estas imagens. Pedro vive aqui. E não me pareceu nada deprimido ou triste.
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É claro que em Paris ou em Londres também se podem encontrar coisas destas. Mas eu vivo é em Lisboa, percebem?
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Se Pedro se lava ali, eu e você também. Na Casa do Pai pode haver muitas moradas. Numa cidade terrena, vivemos todos juntos. Pedro da Veiga somos nós. Por muito que o não queiramos ser.
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Pareceu-me que gostava muito da sua cadela, a Mira. Falou-me muito dela. Explicou-me porque estava gorda.
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No local, existe um caixote do lixo. Não sei como ali foi parar, se Pedro o trouxe ou a Câmara lhe o levou. Mas no local existe um caixote do lixo. O radical absurdo.
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Enquanto falávamos, Mira roeu um osso ou qualquer coisa que havia por ali.

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Tristes de vós, que em tudo encontrais maldade ou intenções obscuras.
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Um aquário. Uma garrafa. O braço partido de um candelabro. E também uma frigideira que eu pisei sem querer. Pedro não reparou, espero eu.
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Às tantas, quis mostrar-me o crucifixo que tinha ao pescoço. Tirou-o para fora da camisa e, pela primeira vez, olhou-me de frente, numa atitude solene e grave de pose para a máquina. Este é Pedro Antunes Fernandes da Veiga, que nasceu há 67 anos em São Nicolau. Um dia, irá morrer, aqui ou noutro lugar. Nós também.
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E foi lá dentro buscar outro crucifixo. Que levantou na mão.
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A rádio permaneceu ligada, bem alto, durante todo o tempo em que estive ali. Agora, era tempo de me ir embora.
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Virei-me para trás, acenei-lhe um adeus. Pedro acenou também.
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Regressei ao entardecer. Mas não em busca de Pedro. Ao longe, são lindos os moinhos.
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7 comentários:

osbandalhos disse...

"Amar acima de tudo a liberdade" L v Beethoven

Julio Amorim disse...

....gostei, gostei mesmo. O Pedro, com um bocadinho de azar, podemos ser nós....outro dia.

João disse...

Comovente, como sempre que neste blogue escrevem sobre pessoas “Gente com nome e lugar”, como eles diz. Porque as cidades não são só prédios degradados e buracos nas ruas.

Mr X disse...

O Sr Pedro é também Lisboa.
Bela fotoreport e belo texto.

AG disse...

Obrigada por nos dar a conhecer o Pedro e esta nossa escondida, e ao mesmo tempo tão à vista, Lisboa.

as velas ardem ate ao fim disse...

Sinceramente, o Pedro somos todos nós.

um abraço

Matos disse...

trabalha a sua terra ? mas a sua terra não é Cabo Verde ? não percebi a confusão...

Se ele tem caixote do lixo, porque não o usa? acumular lixo à porta de casa é desporto?

Por ser um gajo boniiito, leva um RDI e uma casa paga pelos contribuintes .