.
Rua da Lapa, nºs 16 e 18.
.
.
Longos dias tem cem anos.
.
.
Esta loja existe há mais de 120 anos. Cento e vinte anos? Vamos lá: portanto, ele foi o regicídio, a implantação da República, o Afonso Costa e as perseguições aos padres, ele foi o Sidónio e mais a sua sopa, a Ditadura Militar vinda de um golpe de Braga, ele foi o Salazar e o Marcelo, mais os cravos de Abril e depois o PREC. A guerra colonial. E a democracia com partidos. Foi a entrada na CEE, a morte de Sá Carneiro e os governos de Cavaco Silva, com Mário Soares a Presidente. A Expo'98. Houve tempos de crise e outros menos maus. Aqui, passou tudo ao lado. Agora, dizem que anda por aí outra crise. Bem, já houve outra em 1929. O 16 da Rua da Lapa aguentou-se.
.
.
Duas guerras mundiais. No centro da Europa, a Europa das catedrais góticas e das sinfonias de Beethoven, 6 milhões de judeus foram mortos em câmaras de gás. Nessa guerra, morreram quantos? 50 milhões? Esta loja é do tempo em que a mulher não saía à rua, enquanto o homem foi à lua. Quando foi fundada, não existia teoria da relatividade nem psicanálise freudiana. Ia longe o tempo do Maio de 68. Já aqui se vendia sabão quando John Fitzgerald Kennedy foi morto em Dallas. Provavelmente, no dia em que mataram Kennedy o Sr. Oliveira aviou uns pacotes de bicarbonato de sódio e vendeu três escovas de arame prateado.
.
.
De Winston Churchill a Amy Winehouse, ele houve de tudo aqui pelo 16 da Rua da Lapa.
.
.
Lá fora, guerras, turbas, revoluções. Cá dentro, escovas de arame, perfumes e sabões.
.
.
.
E o Restaurador Olex. Agora, há «spas» e tratamentos «laser». Mas vai tudo dar ao mesmo. Daqui a uns anos, a talassoterapia vai parecer tão anacrónica como o Petróleo Olex. É só dar tempo ao tempo. E aqui, tempo não falta.
.
.
.
Hoje mataram o Presidente da Guiné-Bissau. Aqui, não se notou nada.
..
Agostinho Marques de Oliveira, o fundador.
.
O filho, o Sr. Fernando Oliveira, atende uma cliente tão antiga quanto amiga. Fazem falta um ao outro. Mais do que o que julgam. Já estão juntos há muito tempo. Conhecem-se há muitos anos.
.
.
.
Houve gente a morrer e gente a nascer.
.
.
Gente que casou, que teve filhos, teve netos. E depois morreu.
.
.
.
Um colorido mais vivo, um toque de modernidade.
.
.
Tratado da Fenomenologia do Ladrilho.
.
.
Um parênteses pós-moderno.
.
.
.
Parece que agora há bancos em dificuldades. Estes, são sólidos.
..
Então Senhor Oliveira? Vim só ver o que se passou consigo...
.
.
Descobri que tinha diabetes, minha senhora...
.
.
Manoel Oliveira fez 100 anos. Fernando Oliveira fez 96 anos. É rapaz mais novo, portanto. Está ali há... bem, é questão de fazer as contas.
..
Fotógrafo amador, com fotografias publicadas. «Esta é da Costa da Caparica, parece que não há já lá barcos destes». Parece que não, Sr. Oliveira, parece que não.
.
.
Em dezenas de anos, o Sr. Oliveira nunca fechou um dia que fosse. No mês passado, esteve encerrado uns tempos, por doença. Foi um alvoroço na vizinhança.
.
O Sr. Oliveira gostou muito de falar comigo logo que começámos a falar de fotografia. Entusiasmou-se. Foi à estante buscar os livros onde tinham saído fotografias suas. Os clientes que esperassem. Aqui, o tempo é muito relativo.
.
.
.
Estas são fotografias que o Sr. Oliveira tirou na Costa da Caparica. Para quem julgasse que os nossos tempos é que são «modernos», vejam como o pessoal reinadio brincava na praia. O tempo era deles. Era deles o tempo. «No meu tempo...». Qual é o «seu» tempo?
.
.
A idade da inocência.
.
.
Experiência, inocência.
.
.
96 anos. De gravata. Dias a fio atrás de um balcão. A vida é maravilhosa, não é?
.
.
.
.
.
.
.
Sein und Zeit. E uma balança que ainda serve.
.
.
.
Fotografias da Basílica da Estrela. Parecidas com as que eu tento fazer. Qual será o «meu» tempo? Que tempo ainda terei?
.
.
.
.
.
.
Feliz o tempo de quem o desconhece. Como as crianças. Ou o Sr. Oliveira.
.
Não se perguntem: até quando vai durar isto? Não se perguntem. Quem isso perguntar, também não sabe quanto tempo irá durar. Estes, já cá estão vai para 120 anitos. E o Sr. Oliveira não me pareceu muito interessado em gozar uma reforma antecipada. É que já não há barcos daqueles na Costa da Caparica, percebem?
.
.
5 comentários:
Estou encantado nos tempos que correm ainda haver uma casa assim. Um museu ao vivo do comércio que tão mal tratado tem sido e esquecido. Senhores da Camara vamos lá a fazer algo para que se preserve a memória. Tenho que ir lá fazer uma visita.
Notável reportagem a vossa, caros amigos. E essa loja é fabulosa. Uma pena que quem de direito a ignore, a ela, ao Sr. Fernando Oliveira e a todas as outras loja de carácter e de tradição com valia suficiente para ombrear com aquelas lojas encantadoras que gostamos de relembrar quando andamos lá por fora... Uma pena.
O Sr. Oliveira era um belo fotógrafo, entretanto.
Gostei imenso dos textos, das legendas, do texto e do lado humano que resta ainda por essa Lisboa fora, de bata atrás de um balcão.
Parabéns.
Obrigada pela reportagem. O Sr. Fernando conhece-me desde sempre, quando passava na rua da Lapa para ir para a escola. Para mim e como se fosse da minha familia-sempre que vou a Lisboa faco questao de lhe dar um beijinho. Gosto mesmo muito dele. Mesmo sem gravata e um SENHOR :)
Nesse tempo havia outras lojas, lembro-me por exemplo de uma mercearia no canto oposto da rua onde eu gostava de entrar para meter as maos nas sacas e sentir os feijoes passarem-me entre os dedos. Agora temos essencialmente bancos e farmacias e algumas pastelarias ... mas o Sr. Fernando foi ficando. Nao sou saudosista mas por vezes nao nos apercebemos da diferenca que faz a vida de um bairro nao termos locais onde os vizinhos se cruzam e alem das compras trocam noticias, discutem politica e oferecem ajuda.
Mas tive a sorte de conviver com o Sr. Fernando-aconselho vivamente a todos uma visita. E os artigos que ai se vendem sao muito uteis, por isso levem um saco :)
Sandra
Enviar um comentário