segunda-feira, 2 de março de 2009

O que é o tempo, afinal?


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Rua da Lapa, nºs 16 e 18.
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Longos dias tem cem anos.
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Esta loja existe há mais de 120 anos. Cento e vinte anos? Vamos lá: portanto, ele foi o regicídio, a implantação da República, o Afonso Costa e as perseguições aos padres, ele foi o Sidónio e mais a sua sopa, a Ditadura Militar vinda de um golpe de Braga, ele foi o Salazar e o Marcelo, mais os cravos de Abril e depois o PREC. A guerra colonial. E a democracia com partidos. Foi a entrada na CEE, a morte de Sá Carneiro e os governos de Cavaco Silva, com Mário Soares a Presidente. A Expo'98. Houve tempos de crise e outros menos maus. Aqui, passou tudo ao lado. Agora, dizem que anda por aí outra crise. Bem, já houve outra em 1929. O 16 da Rua da Lapa aguentou-se.
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Duas guerras mundiais. No centro da Europa, a Europa das catedrais góticas e das sinfonias de Beethoven, 6 milhões de judeus foram mortos em câmaras de gás. Nessa guerra, morreram quantos? 50 milhões? Esta loja é do tempo em que a mulher não saía à rua, enquanto o homem foi à lua. Quando foi fundada, não existia teoria da relatividade nem psicanálise freudiana. Ia longe o tempo do Maio de 68. Já aqui se vendia sabão quando John Fitzgerald Kennedy foi morto em Dallas. Provavelmente, no dia em que mataram Kennedy o Sr. Oliveira aviou uns pacotes de bicarbonato de sódio e vendeu três escovas de arame prateado.
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De Winston Churchill a Amy Winehouse, ele houve de tudo aqui pelo 16 da Rua da Lapa.
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Lá fora, guerras, turbas, revoluções. Cá dentro, escovas de arame, perfumes e sabões.
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E o Restaurador Olex. Agora, há «spas» e tratamentos «laser». Mas vai tudo dar ao mesmo. Daqui a uns anos, a talassoterapia vai parecer tão anacrónica como o Petróleo Olex. É só dar tempo ao tempo. E aqui, tempo não falta.
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Hoje mataram o Presidente da Guiné-Bissau. Aqui, não se notou nada.
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Agostinho Marques de Oliveira, o fundador.
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O filho, o Sr. Fernando Oliveira, atende uma cliente tão antiga quanto amiga. Fazem falta um ao outro. Mais do que o que julgam. Já estão juntos há muito tempo. Conhecem-se há muitos anos.
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Houve gente a morrer e gente a nascer.
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Gente que casou, que teve filhos, teve netos. E depois morreu.
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Um colorido mais vivo, um toque de modernidade.
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Tratado da Fenomenologia do Ladrilho.
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Um parênteses pós-moderno.
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Parece que agora há bancos em dificuldades. Estes, são sólidos.
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Então Senhor Oliveira? Vim só ver o que se passou consigo...
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Descobri que tinha diabetes, minha senhora...
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Manoel Oliveira fez 100 anos. Fernando Oliveira fez 96 anos. É rapaz mais novo, portanto. Está ali há... bem, é questão de fazer as contas.
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Fotógrafo amador, com fotografias publicadas. «Esta é da Costa da Caparica, parece que não há já lá barcos destes». Parece que não, Sr. Oliveira, parece que não.
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Em dezenas de anos, o Sr. Oliveira nunca fechou um dia que fosse. No mês passado, esteve encerrado uns tempos, por doença. Foi um alvoroço na vizinhança.
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O Sr. Oliveira gostou muito de falar comigo logo que começámos a falar de fotografia. Entusiasmou-se. Foi à estante buscar os livros onde tinham saído fotografias suas. Os clientes que esperassem. Aqui, o tempo é muito relativo.
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Estas são fotografias que o Sr. Oliveira tirou na Costa da Caparica. Para quem julgasse que os nossos tempos é que são «modernos», vejam como o pessoal reinadio brincava na praia. O tempo era deles. Era deles o tempo. «No meu tempo...». Qual é o «seu» tempo?
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A idade da inocência.
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Experiência, inocência.
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96 anos. De gravata. Dias a fio atrás de um balcão. A vida é maravilhosa, não é?
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Sein und Zeit. E uma balança que ainda serve.
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Fotografias da Basílica da Estrela. Parecidas com as que eu tento fazer. Qual será o «meu» tempo? Que tempo ainda terei?
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Feliz o tempo de quem o desconhece. Como as crianças. Ou o Sr. Oliveira.
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Não se perguntem: até quando vai durar isto? Não se perguntem. Quem isso perguntar, também não sabe quanto tempo irá durar. Estes, já cá estão vai para 120 anitos. E o Sr. Oliveira não me pareceu muito interessado em gozar uma reforma antecipada. É que já não há barcos daqueles na Costa da Caparica, percebem?
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Eu esforcei-me por perceber. Mas cheguei a casa sem a certeza de o ter conseguido. Abracei as minhas filhas, porque é cada vez mais delas o tempo. E lembrei-me com muita ternura de uma grande amiga que me disse para vir aqui. É à Rua da Lapa, nº 16.
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6 comentários:

F Nando disse...

Estou encantado nos tempos que correm ainda haver uma casa assim. Um museu ao vivo do comércio que tão mal tratado tem sido e esquecido. Senhores da Camara vamos lá a fazer algo para que se preserve a memória. Tenho que ir lá fazer uma visita.

Paulo Ferrero disse...

Notável reportagem a vossa, caros amigos. E essa loja é fabulosa. Uma pena que quem de direito a ignore, a ela, ao Sr. Fernando Oliveira e a todas as outras loja de carácter e de tradição com valia suficiente para ombrear com aquelas lojas encantadoras que gostamos de relembrar quando andamos lá por fora... Uma pena.

FuckItAll disse...

O Sr. Oliveira era um belo fotógrafo, entretanto.

M Isabel G disse...

Gostei imenso dos textos, das legendas, do texto e do lado humano que resta ainda por essa Lisboa fora, de bata atrás de um balcão.
Parabéns.

Sandra disse...

Obrigada pela reportagem. O Sr. Fernando conhece-me desde sempre, quando passava na rua da Lapa para ir para a escola. Para mim e como se fosse da minha familia-sempre que vou a Lisboa faco questao de lhe dar um beijinho. Gosto mesmo muito dele. Mesmo sem gravata e um SENHOR :)
Nesse tempo havia outras lojas, lembro-me por exemplo de uma mercearia no canto oposto da rua onde eu gostava de entrar para meter as maos nas sacas e sentir os feijoes passarem-me entre os dedos. Agora temos essencialmente bancos e farmacias e algumas pastelarias ... mas o Sr. Fernando foi ficando. Nao sou saudosista mas por vezes nao nos apercebemos da diferenca que faz a vida de um bairro nao termos locais onde os vizinhos se cruzam e alem das compras trocam noticias, discutem politica e oferecem ajuda.
Mas tive a sorte de conviver com o Sr. Fernando-aconselho vivamente a todos uma visita. E os artigos que ai se vendem sao muito uteis, por isso levem um saco :)

Sandra

Pedro B disse...

O snr Fernando faleceu há uns meses. A loja fechou.
Ontem de manhã, ao passar como todos os dias pela rua, percebi uma porta aberta e espreitei. No interior, alguns trabalhadores atarefados carregam materiais para o interior e transportam entulho para um contentor na rua. A loja do snr. Fernando está a ser desmontada. Perguntei que tipo de intervenção estava a ser preparada para o local. Vão manter a traça? O mobiliário de madeira? os azulejos? os tectos pintados? um trabalhador, um rapaz de leste, balbuciou qualquer coisa antipática. Temi pelo que pode acontecer, pelo desprezo pela memória do Snr Fernando, pela indiferença... Resolvi fazer qualquer coisa. Liguei para o Gabinete de Projecto de S. Bento, fui à Junta de Freguesia, liguei à polícia municipal, falei com a vereadora da cultura da Lapa... Não sei bem o que vai acontecer, ninguém sabe o que pode fazer exactamente. Vou lá passar agora mas temo pelo que vou encontrar. Estou triste...