sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Almada, tão longe.

Um destes dias, passei em frente ao edifício-sede da Administração do Porto de Lisboa. Na entrada, um hall com uma escadaria iluminada através de belíssimos vitrais Arte Nova. Um funcionário zeloso advertiu-me de imediato que não podia fotografar. Perguntei-lhe porquê. Respondeu-me que «não era conveniente, que aquele espaço pertencia à Administração do Porto de Lisboa, SA e por isso...». E por isso... encolhi os ombros e virei as costas. Já tinha fotografado o que me interessava. O diligente funcionário para lá ficou, avinagrado, a falar sozinho.


Já fora do edifício na Rua da Junqueira recordei os tempos em que, em bandos, descíamos a correr as Escadinhas de Santo Amaro. Cheiravam a chocolate, as Escadinhas, chocolate da «Aliança», fábrica que já não existe e onde não têm conta as vezes que nos ofereceram guloseimas quando por lá passávamos aos gritos, em direcção aos «amarelos» da Carris a caminho das docas de Alcântara. Nas docas, apanhávamos caranguejos. Enquanto os mais velhos treinavam remo no tanque da Associação Naval de Lisboa ou no Clube Ferroviário de Portugal, nós, os putos, íamos ver descarregar o açúcar que vinha de África. Homens descalços enchiam à pazada grandes sacas e uma enorme grua descarregava os barcos para os camiões que esperavam, alinhados como soldados. Entretanto, os mais velhos continuavam ocupados com o remo. Nós íamos até à Gare Marítima de Alcântara ou à Gare da Rocha Conde de Óbidos ver "os camónes". Aí vi também os painéis do Almada.

Painéis na Gare Marítima de Alcântara
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Painel "Lá vem a nau Catrineta que traz muito que contar."
Autor do painel: Almada Negreiros, 1893-1970.
Fotógrafo: Mário Novais, 1926?-1985.
Data aproximada da fotografia original: 1943-1945.
[CFT003 082296.ic]

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Animado pelas recordações da infância, resolvi passear no sábado junto ao Tejo, entre a Rocha Conde de Óbidos e Alcântara. Foi aqui que cresci. Hoje cresce outra coisa, talvez pior do que eu. Na Frente Ribeirinha, entre Alcântara e a Rocha Conde de Óbidos ou entre Santa Apolónia e a Expo, nasce um muro de contentores que nos afasta do rio. Os grandes cruzeiros são para outros. As pontes de ambas as Gares, apesar de não serem utilizadas para recebermos quem chega ou para nos despedir dos que partem, estão fechadas. Não podemos entrar. Porquê? Dali, as vistas são magníficas. Digo-vos, que sei. Lembro-me de ver as pontes cheias de familiares dos soldados que iam para o longe da guerra. Hoje, que não temos guerra, queria mostrar aos meus filhos os painéis do Almada. Mas eis que, de novo, um zeloso funcionário me informou que teria de ir à Junqueira pedir autorização «à Doutora» e marcar um dia com «a Doutora». A Doutora Almada Negreiros?! Fomos ver o rio, enquanto podemos. Mostrei aos meus filhos os painéis de Almada Negreiros fotografados por Mário Novais e que a Fundação Calouste Gulbenkian disponibilizou on line na Fliker. A Doutora que se lixe. E a APL também. O funcionário, coitado. Limita-se a cumprir ordens.
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Painel "Quem não viu Lisboa não viu coisa boa".
Autor do painel: Almada Negreiros, 1893-1970.
Fotógrafo: Mário Novais, 1926?-1985.
Data aproximada da fotografia original: 1943-1945.
[CFT003 098014.ic]
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Painel "Quem não viu Lisboa não viu coisa boa".
Autor do painel: Almada Negreiros, 1893-1970.
Fotógrafo: Mário Novais, 1926?-1985.
Data aproximada da fotografia original: 1943-1945.
CFT003 082290.ic
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Painel "Quem não viu Lisboa não viu coisa boa".
Autor do painel: Almada Negreiros, 1893-1970.
Fotógrafo: Mário Novais, 1926?-1985.
Data aproximada da fotografia original: 1943-1945.
[CFT003 098014.ic]

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Painel "Ó terra onde eu nasci".
Autor do painel: Almada Negreiros, 1893-1970.
Fotógrafo: Mário Novais, 1926?-1985.
Data aproximada da fotografia original: 1943-1945.
CFT003 082284.ic
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E é por isso que não vou publicar aqui fotografias que comprovam como a APL, SA trata mal a nossa Frente Ribeirinha. Vou mostrar-vos, senhores, como é bonita a Frente Ribeirinha e porque é que Nós não devemos ficar calados quando nos tiram aquilo que é nosso e não da Administração do Porto de Lisboa, SA. Devolvam-nos os painéis do Almada. E, já agora, não nos tirem o rio.
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Painel "Dom Fuas Roupinho, 1º Almirante da Esquadra do Tejo
ou o Milagre de Nossa Senhora da Nazaré".
Autor do painel: Almada Negreiros, 1893-1970.
Fotógrafo: Mário Novais, 1926?-1985.
Data aproximada da fotografia original: 1943-1945.
[CFT003 082285.ic]
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Museu do Oriente

















Painéis da Gare da Rocha do Conde de Óbidos

Painel. Autor do painel: Almada Negreiros, 1893-1970. Fotógrafo: Mário Novais, 1926?-1985. Data aproximada da fotografia original: 1943-1945. [CFT003 082282.ic]



Construção da Gare Marítima de Alcântara
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Fotógrafo: Mário Novais , 1926?-1985
Data aproximada da fotografia original: 1940-1943.
Autor do projecto: Arquitecto Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957)
[CFT003 004103.ic]

Como vêem, aqui há muita história e muita coisa. A APL administra, não é dona do Porto de Lisboa. «Administrar» não é «roubar», perceberam? Aprendam com o Subprime e a crise.

2 comentários:

Karolo disse...

O que é a AGPL, quem a constituiu, em que data, quem são actualmente os responsáveis por esse enorme corpo que não se conhece.
Tudo o que é de mau para a zona ribeirinha do Tejo é apontada aquela entidade. Será uma sociedade secreta. Há tantas perguntas por fazer e tantas respostas que os lisboetas gostariam de receber...

Fadista disse...

Hoje já ganhei o dia! Já tenho como mostrar os painéis à minha sobrinha.
Ainda há bem pouco tempo me desloquei às Gares Mar. de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos para ver os painéis e o original do relógio do Cais do Sodré e bati com a cabeça na porta! A primeira estava encerrada e a segunda tinha um porteiro/segurança com ordens para não deixar entrar visitantes... Chamo a isto SONEGAR A CULTURA... Afinal, quem é esta gente da Admn. do Porto de Lisboa?!... Nisto, os partidos políticos, nomeadamente os de esquerda, não têm nada a dizer?!.......
Lamentável!