sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Necroturismo.







Cemitério dos Prazeres. A beleza de um turismo de morte
Por Diana Garrido


Necroturismo é uma palavra feia para o turismo em cemitérios. Em Lisboa já se fazem visitas guiadas aos Prazeres que apesar de não ter um Jim Morrison, como o de Père La Chaise, em Paris, tem o maior jazigo privado da Europa


Passear no cemitério dos Prazeres é, e perdoe-nos a chalaça fácil, um verdadeiro prazer. É mais ou menos como passear num jardim, mas sem crianças barulhentas a correr e a jogar à bola, e sem cães a marcar território. É um verdadeiro sossego recheado de história e de arte. E de ciprestes que orgulhosamente representam a maior mancha verde da Europa, deste género. Mas não são os únicos a merecer o epíteto de maior da Europa. O ex-líbris do cemitério, o jazigo de D. Pedro de Sousa Holstein, Duque de Palmela, é o maior jazigo privado da Europa, o mais antigo e uma verdadeira última morada. Mas já lá vamos.
Licínio Fidalgo é o mestre de cerimónias desta mórbida visita guiada. Desde 2004 que é o responsável pela história do cemitério e o homem por trás dos já dez percursos turísticos disponíveis nos 12 hectares dos Prazeres. Licínio, 52 anos, é formado em História e sabe de cor datas e acontecimentos que o comum dos mortais já esqueceu ou nunca soube, e que partilha alegremente com quem assim o desejar. Já chegou a receber um grupo de 80 galegos que vieram a Portugal de propósito para visitar o Cemitérios dos Prazeres. A razão é só uma: é onde estão sepultados grande parte das personagens históricas portuguesas dos séculos XIX e XX e onde se encontram alguns dos mais belos jazigos.
Apesar de ter sido criado em 1833, durante uma violenta epidemia de cólera, a história do Cemitério dos Prazeres, segundo Licínio, remonta ao século XIV, quando a Peste Negra matou milhões de pessoas na Europa.
A primeira coisa que o nosso guia nos faz observar é o portão do cemitério, para o qual ninguém perde tempo a olhar mais do que o suficiente para não esbarrar com ele. Mas a verdade é que está cheio de iconografia da morte, com destaque para as ampulhetas com asas ora de morcego, representando as trevas da morte, ora com asas de pomba, símbolo de libertação.

últimas moradas O primeiro jazigo que Licínio mostra pertence à família Carvalho Monteiro, a mesma que mandou construir a Quinta da Regaleira, em Sintra. António Augusto Carvalho Monteiro, conhecido como o Monteiro dos Milhões, não satisfeito com o que teve em vida, decidiu construir um jazigo a fazer lembrar o Palácio da Regaleira. Para isso, contou com a ajuda do arquitecto Luigi Manini, responsável pelo projecto megalómano da Regaleira. Assim como o Palácio, também o jazigo está carregado de simbolismo relacionado com a Maçonaria.
“Às vezes caímos na tentação de ver símbolos da Maçonaria por todo o lado”, confessa Licínio, garantindo, no entanto, que este não é caso. Para que não restem dúvidas, o guia historiador aponta alguns dos elementos que fazem do jazigo de Carvalho Monteiro uma ode à Maçonaria. A primeira coisa que nos mostra são os ramalhetes de três papoilas dormideiras, a flor de onde se estria o ópio, que representam o sono eterno. Entre muitos outros pormenores, Licínio destacou a abelha de ferro presa à porta do jazigo, representante do maçom e do seu esforço e trabalho organizado. A caveira, nas costas da abelha, simboliza a morte de um ancião, de alguém que morreu sabendo quase tudo.
À medida que a visita avança, uma espécie de best of dos dez percursos das visitas guiadas, Licínio explica-nos a razão de ser de tanta preocupação na morte: “Era uma espécie de feira das vaidades. Quanto maior era o jazigo, mais poder e status mostrava. Era uma competição”.
E houve ilustres desconhecidos que levaram a sério essa competição, construindo jazigos que se erguem quase à altura dos ciprestes, em direcção ao céu. Talvez com esperança de chegar lá mais depressa, livrando-se rapidamente de todos os pecados cometidos em vida. Também há quem quisesse tanto ser enterrado na igreja da terra que, perante essa impossibilidade, mandou erguer um jazigo igualzinho à igreja da sua infância, em tamanho mais pequeno, e que parece saído do Portugal dos Pequenitos.
De 15 em 15 anos os donos dos jazigos têm de dar sinal de vida, preenchendo uma série de documentos e comprometendo-se a fazer obras de restauro ou melhoramento, caso contrário serão dados como abandonados. Aí, duas coisas podem acontecer: ou são vendidos em hasta pública (há pouco tempo um pequeno jazigo foi comprado por 60 mil euros e outro teve de ser retirado do leilão porque as licitações atingiram números demasiado elevados numa luta épica entre dois interessados) ou aproveitados pela Câmara Municipal de Lisboa para homenagens. É o caso dos Jazigos dos Escritores que têm os restos mortais ou cinzas de José Cardoso Pires, Natália Correia, Matilde Rosa Araújo, Rómulo de Carvalho, Fernando Namora, entre outros.
O ex-líbris, “o jazigo do Duque de Palmela só existe graças à história de amor de D. Alexandre de Sousa Holstein e Dona Isabel Paim”, conta Licínio. Ora D. Pedro de Sousa Holstein, o 1º Duque de Palmela, só veio a este mundo porque seus pais protagonizaram uma bonita história de amor com final feliz e que agora não temos tempo de contar. Digamos que o casal esteve separado 13 anos por culpa do Marquês de Pombal, mas o matrimónio lá aconteceu. O jazigo do Duque de Palmela parece uma igreja. Para lá entrar é preciso abrir os portões e caminhar alguns metros até à entrada principal, ladeada por doze ciprestes de cada lado, onde repousam os restos mortais dos seus empregados. Homens do lado direito, mulheres do lado esquerdo. “É uma disposição feudal, com o senhor a olhar lá de cima para os seus criados”, explica Licínio.
Quando finalmente entramos naquilo é quase um apartamento para vida eterna, damos de caras com uma capela e com três criptas que são verdadeiras obras de arte.
Em todo o cemitério é possível ver obras de escultores consagrados como Teixeira Lopes ou Simões de Almeida que, segundo Licínio “viam no cemitério dos Prazeres uma espécie de galeria onde podiam expor os seus trabalhos, sem pagar por isso”.
Um pequeno acidente de aroma putrefacto (o rebentamento de uma urna dentro do jazigo do Duque de Palmela) impediu-nos de descer às catacumbas do jazigo para ver o túmulo do Duque e restante família. No entanto, se quiser fazer uma visita guiada, e juntar-se às dezenas de turistas, alunos de doutoramento e investigadores que cada vez mais visitam o cemitério, esse problema já estará, certamente, resolvido.
Se por acaso se encantar com os Prazeres e começar já a imaginar um bonito funeral no seu futuro longínquo, esqueça. Os 12 hectares estão lotados. A menos que seja artista ou que já tenha um jazigo de família. Boa sorte com isso.


(in jornal «i»)

1 comentário:

Cristiano Ferronato disse...

Concordo com você, é um passeio muito interessante eu fiz e gostei muito, no entanto em alguns momentos fiquei assustado com a falta de conservação já que quando andava em algumas de suas ruas foi possível sentir um odor muito forte e pasmem em alguns locais foi mesmo possível ver crânios e braços dos defuntos saindo dos jazigos. Acredito ser uma bia dica de turismo mas precisa ser melhorado.