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segunda-feira, 29 de junho de 2009

Passeio Livre.


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Caros Leitores do Passeio Livre,

Chegamos a um momento importante da nossa/vossa iniciativa.

Depois de distribuídos os 15.000 autocolantes, faremos dentro de duas semanas uma nova impressão de 20.000 - quatro autocolantes diferentes, 5.000 cada um.Escrevemos-lhe agora para anunciar que está a decorrer uma votação para a escolha dos três autocolantes até à próxima terça-feira dia 30 às 24h00 e gostaríamos que participasse, votando no seu autocolante preferido.Está na altura de fazer um balanço.

O Passeio Livre atraiu atenções na Comunicação Social: TVI On-Line / SIC - Nós por Cá / IOL Diário 06/05/09 / DN GENTE / Correio da Manhã / RTPN (a partir dos 00:44) / Correio do Minho / Diário Digital / Jornal das Caldas / TSF / Público / Diário de Notícias / TV NET / Sol / Jornal de Notícias / Destak. Um especial obrigado aos jornalistas que mostraram interesse em divulgar a iniciativa.

Foi também amplamente divulgado na Blogosfera. Em menos de 4 meses recebemos mais de 500 e-mails - dos quais cerca de 200 com contribuições de fotografias e 20 de protesto.No fundo o autocolante foi um pretexto para iniciar uma conversa que faltava. O blog teve quase 100,000 visitas desde que foi colocado on-line e recebeu centenas de comentários - uns mais instrutivos que outros, ajudam a perceber o problema. Aprendemos todos. Houve muitas histórias de alteração de comportamentos pelo uso dos autocolantes. Sabemos que será uma batalha lenta e temos plena consciência que não será só com autocolantes que lá chegaremos. Estamos sempre a pensar de que forma podemos alterar comportamentos e melhorar a qualidade de vida dos peões e do espaço público nas nossas cidades - a ocupação dos passeios é um símbolo, importante. Por isso mesmo iniciamos uma série de bons exemplos onde todos os nossos leitores estão convidados a enviar fotografias e ilustrações de bons exemplos das cidades onde vivem. Apesar de ser um convite especialmente dirigido aos leitores a residir no estrangeiro, também há bons exemplos em Portugal que podem enviar. Se tiver mais ideias, gostaríamos que nos escrevesse.Todos detestamos receber correio não solicitado, atrevemos a escrever-lhe, porque se mostrou interessado pela nossa causa. Seremos sempre respeitadores e contidos no uso da sua morada. Se não quiser voltar a receber um e-mail nosso contacte-nos.Se quiser daqui a duas semanas teremos mais 20,000 para distribuir - sempre gratuitamente porque muitos de vocês contribuíram para que assim fosse. Se já colou todos os autocolantes que lhe enviamos, pode já pedir mais. Se souber de amigos que se possam interessar pelo mesmo problema, divulgue a iniciativa. Ofereça autocolantes. Quanto mais autocolantes distribuirmos melhor.Leia o blog.Comente. Divulgue. Participe. Escreva-nos. Até à próxima. Passeio Livre. peao.exaltado@gmail.com

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A tradição nunca vai ser o que era.







Os últimos dias dos tronos de Santo António

Rita Dias Baltazar


A receita: uma caixa de cartão, um napperon, um prato para o tostão, as velas, uma jarra de flores e o santo
Do tamanho de uma caixa de sapatos ou tão grandes como a imaginação, os tronos de Santo António são hoje uma tradição quase extinta. É um costume que vive em memórias e arquivos.

Caminhando pela Alfama dos anos 1950, Maria de Portugal rendeu-se aos tronos de Santo António. Ao santo há muito que se havia rendido. É de lá que fala. O seu olhar ficou preso "nos miúdos que faziam tronos à porta de casa com bancos e a imagem do santo".

A antiga presidente da Associação de Artesãos de Lisboa, hoje com 94 anos, facilmente se perde no seu álbum de recordações. O Concurso de Tronos de Santo António conheceu forma pela primeira vez em 1982, ano em que Maria de Portugal fundou a associação. O objectivo era "preservar tradições que não se devem perder". Em Junho celebra-se o santo, mas o famoso "um tostãozinho para o Santo António" do Pátio das Cantigas já se começava a ouvir em Maio pela Lisboa dos manjericos. A frase ficou. Os tronos são hoje mais difíceis de encontrar.

Alfama parece esquecida. Muitas portas e algumas perguntas depois, no número 34 da Rua da Regueira, Margarida Almeida confirma que esta tradição não era só enredo de filmes. "Na minha criação, todos fazíamos. Faziam-se os tronos consoante o jeito e as possibilidades." E acrescenta: "Os que dizem que não se lembram é porque têm vergonha de dizer que pediam."

A dona da mercearia explica que tinha sempre "um banquinho à porta, com uma gaveta para o tostão, em que punha um napperon todos os dias limpinho". O marido, Augusto, assente e até traz um banco da mercearia para exemplificar.

A saudade daquele tempo está-lhes estampada no rosto. Dizem que na mesma Alfama que não envelhece "está tudo a morrer, o bairrismo está a morrer. Só temos uma marcha que é uma doença".

Os tronos, que na origem eram réplica do altar da Igreja de Santo António, ficaram presos "ao engodo do dinheiro, agora anda-se de lata na mão [a pedir para o santo]", contam. Alfama, que em nova "vestiu a blusa clarinha", veste o velho, o novo e o usado, sempre bordado com linhas de recordações. E pelos "becos, escadinhas, ruas estreitinhas" enxerga-se o medo a quem não se conhece.

Com a promessa de que ao final da tarde muita gente lá estaria, o largo do chafariz de dentro está deserto, mas na padaria, quando se ouve falar em tronos de Santo António, as vozes levantam-se. Dulce é a primeira a falar. Do Santo António só sabe o "responso" que lhe reza quando alguma coisa precisa de encontrar: "Gosto muito dele, agora trono? Isso nunca fiz", conta.

Todos riem e é Maria Hermínia quem leva o assunto num tom mais sério e recorda: "Pedia um tostãozinho ao Santo António para comprar uns sapatinhos." Uma voz apressada interrompe: "Eu e os meus irmãos gastávamos tudo em doces e guloseimas. O meu pai não gostava, assim que ele chegava fugíamos todos para casa." A crise chegou ao santo e, por isso, em Alfama, "vêem-se muitos retiros para vender sardinhas. Santo nem vê-lo", diz Fátima Brito, funcionária da padaria. E "este ano ainda vai ser pior", acrescenta.

Fim da tradição

Os tronos eram por vezes obra de muitos. Os pátios reuniam-se para a construção dos tronos com o apoio das colectividades do bairro. Os concursos promovidos por jornais como o Diário Popular e pela autarquia de Lisboa, com direito até a prémio pecuniário, funcionavam como incentivo.

Talvez por isso, o mais célebre trono de Alfama seja o da Rua dos Corvos, elaborado com o apoio do Corvense, uma das colectividades do bairro. Jorge Antunes foi um dos últimos envolvidos na construção do trono e não é fácil convencê-lo a falar sobre o tema: "Alguns dos tronos do Corvense correram o mundo", diz. E conta que chegou a fazer "uma réplica da Igreja de Santo António com o seu altar-mor", ou a "representação do Sermão de Santo António aos Peixes", entre outros.

Os materiais que utilizava eram, essencialmente, madeira, esferovite, plástico, papel autocolante de várias cores e tempo. Muito tempo. "Todas as horas livres, até as de almoço, eram para trabalhar no trono. Contava também com a ajuda da minha mulher." No Adicense, a outra colectividade do bairro, mantém-se a tradição, embora, como reconhece o presidente, os tronos que ali se constroem sejam "menos elaborados" do que os da concorrência. Noutros bairros de Lisboa também existiu este costume. Contam-se entre eles a Mouraria, a Lapa e a Bica.

Foram, aliás, os tronos de Santo António que em 1989 "ajudaram ao ressurgimento do Sport Lisboa Marítimo", explica Fernando Duarte, o homem dos tronos desta colectividade do bairro da Bica. Ali não havia a tradição dos tronos mais pequenos, mas até meados dos anos 1990 conseguiram vários prémios no concurso promovido pela Câmara de Lisboa. Fernando parece estar resignado com o facto de esta tradição, que ainda não está morta, estar moribunda. No entanto, acredita que, se voltarem a existir "financiamentos e com o apoio da autarquia", se pode recuperar este uso, já que o maior problema "é que, ao contrário dos arraiais, por exemplo, este é um investimento sem retorno".

Da mesma opinião partilha Manuela Alegre. Contudo, e a provar que o que se joga aqui é a imaginação, mostra um pequeno trono de Santo António, erguido todo o ano no cimo de um móvel, no seu local de trabalho, a Voz do Operário. Fica a receita: uma caixa de cartão vestida de alegres cores, um napperon ou uma colcha, um prato para o tostão, as velas, uma jarrinha de flores e, por último, o santo.

Três séculos e muitos tronos depois, esta tradição parece estar a conhecer aqueles que são os seus últimos dias. Pedro Moreira, director do departamento de gestão cultural da EGEAC-Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural, tutelada pela câmara, afirma que "nos últimos oito anos, os tronos de Santo António nunca foram do acometimento e missão desta empresa municipal". Muito embora a EGEAC seja responsável pela programação das Festas de Lisboa e tenha por missão "criar uma personalidade cultural única e distintiva para a cidade de Lisboa", o dirigente acredita que a "continuidade desta tradição dependerá de uma maior adesão da comunidade local e muito em particular das instituições comerciais e do associativismo", e admite que esta prática "tem sido algo esquecida no panorama cultural de Lisboa."

Maria de Portugal, por seu turno, manteve até ao fim a sua missão. Embora nos últimos anos os tronos a concurso "não tenham sido o que eram", organizou em Junho do ano passado, quando ainda presidia a Associação de Artesãos de Lisboa, mais uma edição do Concurso de Tronos de Santo António e relembra que "há tradições que não se devem perder." Quem também acredita na tradição é A Vida Portuguesa, então designada Uma Casa Portuguesa, que criou em 2006 um kit para se montar um altar popular em casa.

Até 15 de Junho podem ver-se os tronos a concurso, nas instalações da associação, hoje presidida por Manuela Castro.

Uma velha tradição

A tradição dos tronos de Santo António remonta já ao século XVIII. Terá começado após o terramoto de 1755, quando a igreja daquele que no século XVI se tornou o santo nacional português ficou parcialmente destruída. Particularmente querido dos lisboetas, que o preferem ao santo padroeiro da cidade, S. Vicente, Santo António não podia ficar sem casa. Daí a necessidade de se pedir "um milreizinho para o Santo António" e arrecadar fundos a fim de reconstruir a igreja. Santo António de Lisboa e de Pádua nasceu Fernando de Bulhões em 1195, próximo da Sé de Lisboa, no sítio em que, no século XV, D. João II erigiu a sua igreja. Tornou-se frade franciscano em Coimbra e terá partido para Pádua a convite de Francisco de Assis, onde acabou por falecer a 13 de Junho de 1231.


Público