segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A morte anunciada.







26/12/2011
Prédio que ardeu na Elias Garcia já tinha sofrido dois incêndios


Por Ana Henriques in Público
Do edifício das Avenidas Novas, de valor patrimonial reconhecido, pouco mais resta além da fachada. Morador fala em fogo posto

Quando Nuno Ramalho acordou estremunhado com os bombeiros a baterem-lhe à porta do apartamento no número 77, lembra-se da primeira coisa que disse: "Eu sabia que isto ia acontecer".
"Isto" era o prédio do lado há muito ao abandono irromper em chamas, em pleno centro de Lisboa, pondo em perigo a sua casa e as do lado. Nuno Ramalho, a mulher e os seus seis filhos adolescentes só tiveram tempo de pôr uns casacos pelas costas antes de saírem porta fora de pijama. Eram quatro e meia da manhã, passavam poucas horas da consoada. Os vizinhos foram obrigados a fazer o mesmo.
O funcionário bancário não hesita quando fala sobre a causa do sinistro no prédio número 73 da Av. Elias Garcia: "Foi fogo posto. Um casal que ia a passar na rua viu todos os andares a arderem ao mesmo tempo. É a terceira vez que lhe deitam fogo - a primeira foi em Maio, a segunda em Julho. Moro aqui há oito anos e o edifício sempre esteve ao abandono". Responde com prontidão quando se lhe pergunta se não terá sido o descuido de um sem-abrigo: "Nunca lá vi nenhum".
As chamas saltaram por cima do prédio reabilitado de Nuno Ramalho para irem bater uma porta mais adiante, a uma casa azul igualmente habitada, cuja cobertura destruíram. Seis dezenas e meia de pessoas passaram a madrugada em bolandas. Ontem à tarde ainda havia cheiro a fumo no ar enquanto os bombeiros procediam a operações de rescaldo, para arrefecerem os escombros de madeira. Com a derrocada do interior do edifício, que faz parte do inventário municipal do património, a fachada pode não se aguentar em pé. Daí que grande parte dos habitantes dos prédios contíguos continuem a não ser autorizados a voltar a casa, até se apurar o estado do prédio que ardeu e dos edifícios vizinhos. Estão a dormir em casa de familiares.
Segundo Nuno Ramalho, esta parte do quarteirão - incluindo outro edifício devoluto que está já na Avenida da República - pertence à mesma firma, que chegou a informar os moradores dos prédios vizinhos de que ia fazer obras. "Foi há quatro ou cinco anos, mas nada aconteceu", recorda. Faz um ano que o estado de degradação do edifício, onde funcionava uma antiga leitaria, levou a câmara a cortar o trânsito neste troço da Elias Garcia. O quinto e último piso encontrava-se em risco de "queda iminente".
"Este é um dos já poucos prédios valiosos das Avenidas Novas, e é mais um dos péssimos exemplos que a câmara tem seguido ao longo dos últimos anos: permitir o abandono de valioso património de finais de séc. XIX, princípios do XX", acusou, na altura, o movimento Fórum Cidadania Lisboa.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Isto já não vai com conversas do chácha. Só a tiro!

D.Generosa disse...

Que tristeza...