quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Palácio Valada – Azambuja



O Palácio Valada-Azambuja ao Calhariz, na Freguesia de São Paulo, é património classificado como imóvel de interesse público. O facto de se encontrar cadastrado pelo IPPAR (actual IGESPAR, Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico) como Imóvel de Interesse Público, já por si confere a esta instituição a responsabilidade em zelar pela sua protecção e conservação. O palácio tem um passado que nos conta ter sido construído no século XV, no sítio da Quinta de D. Álvaro Vaz de Almada, Conde de Abrantes. Foi reconstruído depois de o terramoto de 1755 não ter deixado ficara pedra sobre pedra. Sofreu profundas alterações nos séculos XIX e XX, que lhe modificaram a traça original. O palácio foi vendido, em 1867, pelos descendentes dos antigos proprietários, ao conselheiro Francisco José da Silva Torres, que o deixou a uma enteada, casada com o conde de Azambuja. Em 1922, D. José de Melo, da família Azambuja, vendeu o edifício a um comerciante/antiquário, Manuel Henriques de Carvalho. O edifício possui um importante núcleo de azulejos setecentistas para ali levados de um palácio de Almada e colocados pelo seu proprietário, Manuel Henriques de Carvalho, aquando das obras realizadas em 1925. Em 1980 ainda pertencia a esta família.

Presentemente, é propriedade da Santa Casa da Misericórdia e está a ser gerida por um fundo imobiliário.

No palácio já não se encontram os serviços do 6º Bairro Fiscal. Mas ainda lá está aberto um consultório de dentista e o atelier do pintor Guilherme Parente, para além da Biblioteca Municipal Camões, aí instalada desde 6 de Outubro de 1981.





Quem removeu os azulejos do átrio de entrada? Pensamos que talvez possa ter sido o IGESPAR ou alguém com o seu consentimento mas no local ninguém nos soube informar. Não existe qualquer informação oficial, o que nos preocupa. Não sabemos se se trata de uma remoção para restauro – não nos parece necessário tal procedimento. Contudo, tratando-se de um imóvel classificado, deveria existir maior transparência e alguma informação. Caso contrário, como poderemos denunciar situações de furto e vandalismo?




Em O Mandarim, Teodoro falava do palacete amarelo:

Então começou a minha vida de milionário. Deixei bem depressa a casa de Madame Marques – que, desde que me sabia rico, me tratava todos os dias a arroz-doce, e ela mesma me servia, com o seu vestido de seda dos domingos. Comprei, habitei o palacete amarelo, ao Loreto: as magnificências da minha instalação são bem conhecidas pelas gravuras indiscretas da Ilustração Francesa. Tornou-se famoso na Europa o meu leito, de um gosto exuberante e bárbaro, com a barra recoberta de laminas de ouro lavrado e cortinados de um raro brocado negro onde ondeiam, bordados a pérolas, versos eróticos de Catulo; uma lâmpada, suspensa no interior, derrama ali a claridade láctea e amorosa de um luar de Verão.
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Entretanto Lisboa jejuava-se aos meus pés. O pátio do palacete estava constantemente invadido por uma turba: olhando-a enfastiado das janelas da galeria, eu via lá branquejar os peitilhos da Aristocracia, negrejar a sotaina do Clero, e luzir o suor da Plebe: todos vinham suplicar, de lábio abjecto, a honra do meu sorriso e uma participação no meu ouro. Às vezes consentia em receber algum velho de título histórico: - ele adiantava-se pela sala, quase roçando o tapete com os cabelos brancos, tartamudeando adulações; e imediatamente, espalmado sobre o peito a mão de fortes veias onde corria o sangue de três séculos, oferecia-me uma filha bem-amada para esposa ou para concubina.











Os jornalistas esporeavam a imaginação para achar adjectivos dignos da minha grandeza; fui o sublime Sr. Teodoro, cheguei a ser celeste Sr. Teodoro; então, desvairada, a Gazeta das Locais chamou-me o extraceleste Sr. Teodoro! Diante de mim nenhuma cabeça ficou jamais coberta – ou usasse coroa ou usasse coco. Todos os dias me era oferecida uma presidência de Ministério ou uma direcção de confraria. Recusei sempre, com nojo.” (...) “Abandonei o palacete ao Loreto, a existência de nababo. Fui, com uma quinzena coçada, realugar o meu quarto na casa da Madame Marques: e voltei à repartição, de espinhaço curvo, a implorar os meus vinte mil réis mensais e a minha doce pena de amanuense!...









Então, indignado, um dia subitamente reentrei com estrondo no meu palacete e no meu luxo. Nessa noite, de novo o resplendor das minhas janelas, alumiou o Loreto: e pelo portão aberto viram-se como outrora negrejar, nas suas fardas de seda negra, as longas filas de lacaios decorativos. Logo Lisboa, sem hesitar, se rojou aos meus pés. A Madame Marques chamou-me, chorando, . Os jornais deram-me os qualificativos que, de antiga tradição, pertencem à Divindade: Fui o Omnipotente, Fui Omnisciente! A Aristocracia beijou-me os dedos como a um tirano: e o Clero incensou-me como a um ídolo. E o meu desprezo pela humanidade foi tão largo – que se estendeu ao Deus que a criou.

2 comentários:

Paulo Ferrero disse...

Caros Amigos Anónimos,
Só para dizer que os azulejos foram mandados retirar pelo proprietário do imóvel (a Misericórdia) para restauro por uma empresa especializada chamada, julgo, 'Oficina do Azulejo'. O prédio, belíssimo, vai para obras de recuperação muito em breve.
Continuem com o bom trabalho;-)
Abraços
Paulo Ferrero

Gonzalo Mendoza disse...

Hello. Do you know where can I find the plans of the building, as sections, plans, etc? Is for a research work at the University, UTL in Lisbon. Thanks.