quinta-feira, 25 de março de 2010

Uma vergonha.



Venho informar do furto de azulejos da fachada na Rua de Dona Estefânia 29.
Mais uma vez, fico chocada com a apatia dos proprietários face a este fenómeno.
Estes azulejos têm desaparecido nos últimos meses sem que o proprietário tome uma iniciativa para travar a delapidação do património.

Com os meus melhores cumprimentos,

Maria João Silva

Rua do Limoeiro.

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Um dos problemas crónicos na Rua do Limoeiro.

Estacionamento total de viaturas no passeio frente ao nº 17. Foi instalada até uma pequena rampa de metal para ajudar a subir o passeio!

No local existe um conveniente pilarete removível que é retirado sempre que se pretende estacionar no passeio.

Esta situação tem algum fundamento legal? Ou é apenas mais um típico abuso descarado do espaço público?

Aguardamos esclarecimentos da CML.

Fernando Jorge

Habemus Papa!

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Arco da Rua Augusta vai abrir terraço em Maio para visitas


Director Regional de Cultura considera que intervenção no monumento é delicada, mas a abertura ao público é considerada imperativa

A subida pelo interior do Arco (do Triunfo) da Rua Augusta, que faz a ligação dos edifícios da Praça do Comércio classificados como monumento nacional, deverá ser permitida à fruição pública o mais tardar até Maio, dando acesso ao patamar do terraço com ampla visão sobre aquela praça e o Tejo e a Baixa pombalina.

Empenhada em renovar acessibilidades para potenciar o turismo, a Direcção Regional de Cultura (DRC) de Lisboa e Vale do Tejo considera mesmo que "é um imperativo a devolução do monumento à cidade", simultaneamente com a reabertura, em Maio, para a missa papal, de parte do Terreiro do Paço, já com o novo arranjo arquitectónico.

Aquela direcção de Cultura pondera o estudo de soluções profundas de intervenção no monumento, que classifica como "delicadas", mas João Soalheiro, que dirige a entidade, disse ao PÚBLICO que sem deixar de lado as hipóteses em estudo, a DRC "está empenhada em abrir ao público o monumento nas exactas condições que o mesmo oferece, embora isso signifique a adopção de condicionalismos vários, a exemplo do que se passa em monumentos emblemáticos espalhados por urbes históricas da Europa."

A história da intervenção no arco não é nova, e em 2006 já dela se falava, inclusivamente com recurso a mecenas, solução encontrada para a recuperação do relógio que lá se encontra. Mais tarde, em Outubro de 2007, por ocasião da apresentação da recuperação do mecanismo do relógio, com a presença da então ministra Isabel Pires de Lima, também foi dito quão prioritária seria a recuperação de todo o conjunto, ainda que não tenha sido anunciada uma calendarização. Todavia, foi assumida a intenção da sua abertura ao público, eventualmente com recurso a uma plataforma elevatória que permitisse aos visitantes evitar uma penosa escalada pelos mais de 80 íngremes degraus.

Relógio acerta no domingo

Já uma solução final para o funcionamento do relógio deverá ser encontrada até ao final de Abril. João Soalheiro admitiu ao PÚBLICO que o seu mecanismo revelou-se "caprichoso, ao ponto de voltar a falhar a sua missão, reacção que surpreendeu os especialistas". Por isso, a DRC está em processo de consulta às pessoas e instituições envolvidas [Cultura e mecenas], no sentido de serem equacionadas respostas técnicas capazes de solucionar o problema.

Luís Cousinha, neto do fabricante do actual mecanismo, admitiu recentemente problemas de ajustamento dos pesos e também no acesso ao local onde está alojado, mas rejeitou responsabilidades. "[O relógio] andará certo desde que lhe seja dada corda e na madrugada de domingo será acertado pela hora de Verão", disse ontem ao PÚBLICO.

O Arco da Rua Augusta, na versão final segundo projecto de arquitectura de Veríssimo José da Costa, foi construído entre 1873 e 1875.
(in Público).

Mais ano, menos ano, a coisa arranja-se.

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No Metro uma avaria "temporária" pode durar mais de um ano

Na estação do metro de Lisboa da Baixa-Chiado há não uma mas duas escadas rolantes avariadas, às quais se junta um elevador que não funciona, imagine-se, há quase um ano. A empresa tem justificado as avarias (que os utilizadores da estação se queixam de serem demasiado frequentes e que os obrigam a descer a pé dezenas de degraus) dizendo que estas "são escadas com pendentes muito altos e com um elevadíssimo grau de utilização" e atribuindo culpas aos "frequentes" actos de vandalismo. Quanto ao elevador, um cartaz colocado no local em Abril de 2009 informa: "Por motivos técnicos, este equipamento está temporariamente fora de serviço". Dá vontade de perguntar ao metro se planeia resolver o problema ou se vai alterar aquela informação escrita para indefinidamente ou, por que não?, permanentemente.

(in Público)

Estranho.

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A gente não percebe: ontem, o Presidente da CML disse que o Instituto de Turismo de Portugal não apoiaria a realização da Red Bull Air Race em Lisboa. Mas vai haver prova ou não aqui em Lisboa? Parece que não... Mas... ONTEM foi noticiado também que Lisboa foi escolhida como melhor destino da Europa, num inquérito a 3.000 pessoas de 47 países... O melhor destino da Europa e o Instituto de Turismo não apoia? Estranho.

Há luz no fundo do


Câmara paga 18,1 milhões pelo túnel

Acordo alcançado com o consórcio faz a autarquia poupar 6,5 milhões de euros, segundo António Costa.

A Câmara Municipal de Lisboa (CML) vai pagar ao consórcio CME/Tâmega 18,1 milhões de euros por causa da paragem durante a construção do Túnel do Marquês. O acordo alcançado entre ambas as partes permitiu à autarquia poupar 6,5 milhões de euros.

Segundo fonte do município, o acordo foi assinado na terça-feira, quase seis anos após as obras no túnel terem parado por causa de uma providência cautelar interposta por José Sá Fernandes, hoje vereador na CML. Entre as irregularidades alegadas pelo advogado encontrava-se a ausência de um estudo de impacte ambiental e de tráfego, a inexistência de consulta pública do processo, a não audição do Instituto Português do Património Arquitectónico e o arranque das obras sem o projecto de execução estar concluído.

Os trabalhos estiveram parados entre Abril de 2004 e Janeiro de 2005, pois o tribunal considerou que o consórcio deveria ser ressarcido pelo esforço financeiro. Acabou por condenar a CML a pagar 24,6 milhões de euros, mas o consórcio reclamava o pagamento de mais 91,9 milhões e juros.

Com este acordo, o consórcio prescindiu de mais de 2,8 milhões de euros e aceitou a multa superior a 3,7 milhões que a autarquia lhe aplicara pelo atraso na execução. Assim, a CML terá de pagar 18,1 milhões de euros, ou seja, conseguiu com a negociação poupar 6,5 milhões de euros, acrescendo a quantia a pagar pelos trabalhos de conclusão da obra.

De acordo com o calendário definido, o consórcio apresentará à autarquia, para aprovação, o plano de execução e de trabalhos até 30 dias após a homologação do acordo, tendo ainda outros 30 dias para eventuais correcções. O que resta da obra será executado em dez meses, a partir da aprovação do plano de trabalhos.

(in Diário de Notícias).

quarta-feira, 24 de março de 2010

“a oitava” Pavilhão de Segurança / Enfermaria Museu





“O mítico Pavilhão de Segurança, ‘a oitava’, na gíria interna, estigmatizado pela sociedade e pelo próprio hospital, era especialmente temido pelos outros doentes e até por enfermeiros e auxiliares.” (in “Panóptico, vanguardista e ignorado – O Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel Bombarda”, p. 68. Vítor Albuquerque Freire, Livros Horizonte, 2009)
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A torre de vigilância panóptica do Pavilhão de Segurança, rodeada por doentes, alguns amarrados com coletes-de-forças, em 1899 - uma imagem-simbolo da história do pavilhão e das concepções assistenciais da época (fotografia publicada na revista Brasil Portugal, ano I, n.º 20, 16 de Novembro de 1899, p.5)
O Conselho de Administração do Hospital "[...] consciente da importância patrimonial do Pavilhão de Segurança, bem como do Balneário D. Maria II, submeteu à apreciação do IPPAR, em final de Julho, uma proposta de classificação desses imóveis, acompanhada por uma Memória Justificativa contendo o estudo histórico fundmentando o seu valor."
"Entretanto, consensualizava-se a solução de vocacionar o Pavilhão de Segurança a uma finalidade museológica, a reutilização que previsivelmente menos riscos comportaria para a preservação do edifício, assegurando ainda a fruição e a compreensão do espaço pelo público [...] o IPPAR qualificou o edifício 'Imóvel de Interesse Público, em vias de classificação' [...] Por outro lado, a criação de um museu permitiria uma protecção mais efectiva do acervo histórico do hospital. [...] O núcleo museológico do hospital Miguel Bombarda, designado Pavilhão de Segurança, Enfermaria-Museu, é constituido por várias colecções de objectos e de documentos, e ainda pelo próprio edifício que as alberga, a exemplo das 'casas-museus'. Não é um edifício onde se instalou um museu, o próprio edifício constitui a componente mais valiosa e emblemática do museu, enquanto surpreendente peça de arquitectura-arte." (in “Panóptico, vanguardista e ignorado – O Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel Bombarda”, p. 73. Vítor Albuquerque Freire, Livros Horizonte, 2009)




















O arquitecto José Maria Nepomuceno (1836-1895), retrato de 1884.
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"José Maria Nepomuceno (1836-1895), diplomado em 1858 com o Curso de Arquitectura da Academia de Belas-Artes de Lisboa, desenvolveu desde 1865 extensa actividade no Ministério das Obras Públicas." [...] "Da responsabilidade de Nepomuceno são usualmente mencionados o restauro revivalista do Convento da Madre de Deus e o projecto para a Escola Médico-Cirúrgica, ambos em Lisboa." (in “Panóptico, vanguardista e ignorado – O Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel Bombarda”, p. 24. Vítor Albuquerque Freire, Livros Horizonte, 2009)
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Planta legendada e fachada do Pavilhão de Segurança, provavelmente desenhadas em 1892, publicadas pelo Prof. Miguel Bombarda em 1894, sem indicação do autor.
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"Não obstante o seu excepcional valor patrimonial, e a sua singularidade, até pela forma circular que ostenta, o Pavilhão de segurança (projecto de 1892, construcção de 1893 a 1896) do Hospital Miguel Bombarda, [...] permaneceu ignorado pelos estudos históricos ou meros levantamentos de arquitectura portuguesa. Ainda que tenha sido sucessivamente exposto, enquanto cenário, em notáveis filmes de António Reis e de João César Monteiro" (in “Panóptico, vanguardista e ignorado – O Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel Bombarda”, p. 11. Vítor Albuquerque Freire, Livros Horizonte, 2009)
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Lavatório.
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Lanternim-respiradouro da Sala de Reunião.
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Sala de Reunião.
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Respiradouro oval (todos os compartimentos o possuem), com lâmpada instalada.
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Óculo de vidro espesso para inspecção do interior de celas e de dormitórios. Ferrolho de culatra com fechadura de chave triangular. Portinhola para passagem das refeições, posteriormente selada.
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Cela.
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Espaço museológico.
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Planta do Balneário D. Maria II.
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Mobiliário hospitalar de design português.
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Colete-de-forças.
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Magneto, de correntes fracas, final do séc. XIX, precursor dos aparelhos electroconvulsores.
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Curioso retrato do Dr. Júlio de Matos, pintor não identificado, acervo do Museu.
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Gaiola pertencente a um paciente que pode ser vista sob o alpendre em algumas fotografias antigas.
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Acervo museológico, ao centro: sino, 1640, com inscrição "Anno 1640 de Sto António" e "IHS" provavelmente da Igreja do Colégio St. Antão dos Jesuitas, hoje Hospital de São José. Em primeiro plano: sino, 1740, provavelmente da Igreja do Convento de Rilhafoles dos Padres de São Vicente de Paula.
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Inscrições gravadas na pedra por doentes, precioso testemunho de uma vivência estranha num mundo estranho - o nosso.
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Alguns trabalhos de doentes(Outsider Art) enquanto terapia ocupacional.
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Hélder do Carmo Tobias, (luta de animais).
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Joaquim A. M. Demétrio, 1964.
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“Valentim Barros foi outro doente do Pavilhão de Segurança cuja vida trágica seria divulgada para lá dos muros do hospital, na sequência de um artigo-entrevista de Luís d’Oliveira Nunes, publicado em 1968 no Diário de Lisboa. O artigo constitui uma abrangente súmula biográfica sobre Valentim, um lendário residente homossexual do Pavilhão. Filho de um professor universitário, sai de casa aos 16 anos e torna-se bailarino profissional, actua em vários países, mas sobretudo na Alemanha nazi, pontualmenmte em Berlim, depois no Teatro da Ópera de Estugarda, sendo mesmo condecorado por Goering. Em 1938, aos 22 anos, é internado pela primeira vez, comportando-se como mulher ou julgando ser Nijinsky, e episodicamente violento, dizia-se. Ficaria no hospital por mais de 40 anos, e até falecer, em 1986, a maior parte do tempo no Pavilhão de Segurança. Habitava uma cela-quarto transformada num diminuto espaço identitário, com o seu rádio, pássaros, imagens de santas e decorações, onde fazia renda e tricot, bordava, confecionava bonecas com olhos de corista, para vender, e pintava paisagens, bem como cenários de cores vivas e subtis para as festas do hospital." (in “Panóptico, vanguardista e ignorado – O Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel Bombarda”, p. 71. Vítor Albuquerque Freire, Livros Horizonte, 2009)
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Desenho de Jaime Fernandes (1901-1968), um expoente mundial da Arte Brut, que por longos anos residiu no Pavilhão de Segurança.."Entre os doentes do Pavilhão de Segurança, o mais conhecido será Jaime Fernandes, autor de peculiares desenhos e um dos principais representantes da chamada Art Brut ou Outsider Art. Trabalhador rural nascido em Barco, Covilhã, foi admitido no Hospital Miguel Bombarda em 1938, aos 37 anos de idade, aí falecendo a 22 de Março de 1968,após 30 anos de internamento em diversas unidades, entre as quais a 8.ª Enfermaria. Posteriormente, a sua obra foi divulgada graças ao filme ‘Jaime’ (1974) e à exposição organizada em 1980 pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, com 74 desenhos que subsistiram." (in “Panóptico, vanguardista e ignorado – O Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel Bombarda”, p. 70. Vítor Albuquerque Freire, Livros Horizonte, 2009)

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“A média-metragem “Jaime” de António Reis (com a colaboração de Margarida Cordeiro, psiquiatra), rodado em 1973 e estreado a 2 de Maio de 1974. […] constitui o primeiro filme a expor como cenário o Pavilhão de Segurança, […]” (in “Panóptico, vanguardista e ignorado – O Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel Bombarda”, p. 72. Vítor Albuquerque Freire, Livros Horizonte, 2009).

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“Embora, ao que parece, nunca tenha habitado o Pavilhão de Segurança, destaque-se aqui Ângelo de Lima (1872-1921), um grande mas pouco nomeado poeta dos alvores do século xx (também pintor), internado em Rilhafoles durante 20 anos, desde 1901 até 1921, um poeta que os modernistas, como Fernando pessoa, tanto apreciavam, e que publicaram em 1915 na revista Orpheu.” (in “Panóptico, vanguardista e ignorado – O Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel Bombarda”, p. 70. Vítor Albuquerque Freire, Livros Horizonte, 2009)
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Ângelo Vaz Pinto Azevedo Coutinho de Lima (Porto, 30 de Julho de 1872 - Lisboa, 14 de Agosto de 1921), pintor e poeta louco da revista Orpheu.Nasce no Porto em 1872, filho de Pedro de Lima e de Maria Amália Azevedo Coutinho de Lima. Foi uma criança precoce e sonhadora. Em 1882, vai estudar para o Colégio Militar em Lisboa (aluno nº 205). Em 1883, o seu pai morre louco (segundo Ângelo de Lima, a causa teria sido uma sífilis terciária). É também nesse ano, que se torna "muito onanista" e fumador, segundo confessa na sua curta autobiografia. Em 1888, é expulso do Colégio Militar, por repetente, e regressa ao Porto, onde frequenta as aulas da Academia de Belas-Artes, a que, segundo ele, "gazeteava notavelmente".Em data não especificada, assenta praça. Militar disciplinado, chega ao posto de 2º sargento de Infantaria nº 6, sendo bem-quisto dos subordinados e dando boa conta do serviço. Contudo, as rotinas inúteis e o tédio de caserna inclinam-no ao alcoolismo e em certa ocasião provoca um desacato que lhe valeu 30 dias de prisão correccional. É aliciado por alguns camaradas a participar na revolta republicana do 31 de Janeiro de 1890 no Porto, mas tal não vem a acontecer. Em 1890 alista-se num projectado Batalhão Académico (que viria a ser proibido pelo Governo) e em 1891, por espírito de aventura, integra-se numa expedição militar destinada a Manica, em Moçambique. Ao passar por Adem, entristecido, toma conhecimento do falhanço da revolta do 31 de Janeiro.Depois de sete meses em África ("com as vísceras flutuando em vinho"), em 1892, regressa à metrópole e retoma os estudos na Academia de Belas-Artes do Porto, com maior proveito. Vai depois para Monsanto onde presta serviço militar. Em 1894, substitui o pintor António Carneiro como director artístico da revista A Geração Nova. No Porto, parece ter andado fortemente excitado, inflamado de amores por uma senhora que diziam ser sua irmã natural (filha bastarda do seu pai). Esse facto não terá sido alheio ao seu internamento a 20 de Novembro desse ano, no Hospital do Conde de Ferreira, com o diagnóstico de "delírio de perseguição, num degenerado hereditário, ideias de perseguição, alucinações do ouvido, desconfianças de família, insónia, períodos de forte excitação". No final de Janeiro de 1898, sai do Hospital do Conde de Ferreira e é asilado, por algum tempo, no hospício dos Irmãos de São João de Deus, perto do Cacém. Segue depois para o Algarve onde vive durante dois anos, onde pintou "com irregular facilidade, alguma coisita". Em 1900, vai morar para Lisboa, onde vive "quase sem ter que fazer, com alguma irregularidade, embora melhor, com umas 4 ou cinco, se tanto, maiores estroinices (…) aplicado geralmente a trabalho de gestão em ilustração e correcção em censo, da mentalidade". Numa noite de Dezembro de 1901, é preso pelo crime de proferir uma obscenidade ("praticado como explosão do aperto em que o punham") e causar escândalo em pleno "promenoir" do Teatro Dona Amélia, o que levará a que, em 19 desse mês, seja internado no Hospital de Rilhafoles (actual Hospital Miguel Bombarda). Na perícia médico-legal que lhe faz, o psiquiatra Dr. Miguel Bombarda declara-o alienado e inimputável (seria um esquizofrénico paranóide, segundo a terminologia actual), e descreve-o assim: "Grande altura (1,70 m). Corpo e membros 'elancés'. Dedos muito longos, encurvados. Orelhas grandes, mal formadas, de lóbulo muito curto em ponta aderente. Crânio muito alto; depressão na glabela, convexidade frontal muito pronunciada. (…) Face muito longa. Campo visual normal (…) Cavidade bucal muito espaçosa. Dentes cariados, alguns mal implantados. Queixo recuado."Em 5 de Setembro de 1902, o jornal O Dia publica um artigo sobre os alienados do Rilhafoles. Ângelo de Lima é descrito como tendo um aspecto triste e doentio, tomado de uma enorme depressão: "não me sinto bem, cada dia me parece um degrau descido a mais…" No hospital, escreve, desenha, e pinta (lastimosamente, segundo o Dr. Miguel Bombarda). Entretanto, os seus poemas, alguns com laivos simbolistas, mas outros com características marcadamente delirantes e surreais, repletos de neologismos, versos de sentido incompreensível, provocam a admiração dos futuristas que, em Junho 1915, em atitude provocadora para espantar o burguês lisboeta, lhe publicam alguns textos no nº 2 da Orpheu.
Ângelo de Lima permaneceria internado no Rilhafoles até ao final da sua vida, aos 49 anos.
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Bibliografia
Poesias Completas, Inova, Porto, 1971; Assírio e Alvim, Lisboa, 1991. Poemas in Orpheu 2 e outros escritos, Hiena, Lisboa, 1984.
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"Já notado pela sua originalidade e densidade simbólica, por via de Jaime, o Pavilhão de Segurança serviu de cenário em outros filmes. O admirável Recordações da Casa Amarela (1989), do realizador João César Monteiro, premiado com o Leão de Prata do Festival de Veneza, em que o autor, num dos planos, explora o efeito panóptico do edifício: a câmara, colocada no centro do recinto, num movimento de 360 graus, acompanha o protagonista a correr pelo passeio circular e a regressar ao banco de onde partira. Posteriormente, em Bodas de Deus, de 1998, aquele realizador, argumentista, actor, revisita o pátio-mundo do Pavilhão e volta a captar o portão de ferro, como num rito de passagem para a liberdade ou para o degredo. Mensione-se ainda o filme Solo Violino, de 1990, dirigido por Monique Rutler, em que o edifício, na verdade uma enfermaria muito específica, serve de enfermaria psiquiátrica comum, desta vez para mulheres..."(in “Panóptico, vanguardista e ignorado – O Pavilhão de Segurança do Hospital Miguel Bombarda”, p. 72. Vítor Albuquerque Freire, Livros Horizonte, 2009)
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Horários:
Qua: 11h30-13h
Sáb: 14h-17h
Outros dias com marcação prévia: 10h-13h, 14h-16h
.Visitas Guiadas - incluem no seu percurso o Balneário D. Maria II (1854) e o ex-gabinete do director, onde o Prof. Miguel Bombarda foi assassinado nas vésperas da revolução de 1910.
Endereço: Rua Dr. Almeida Amaral, 11169-053 Lisboa
Telefone: 213177400 / 213177435
Acessos: Estacionamento gratuito